sexta-feira, 21 de julho de 2017

A TMI e a formação da diabolicíssima trindade (última parte)

A famosa igreja da foice e do martelo.
Obra de Oscar Niemeyer na Pampulha, BH.

Eu ouvi toda sua exposição atenciosamente. Impressionado com aquelas ideias exatas e maravilhosas sobre sua estratégia vitoriosa de encontrar um ponto de contato com pessoas culturalmente avessas ao Evangelho: 1) entrar na comunidade e oferecer a todos uma solução para a falta de água na região; e 2) paralelamente, encontrar um “homem de paz” (Lucas 10:6), que se abrirá para ouvir o Evangelho. Nesta ação, o Evangelho não é oferecido como moeda de troca, pois o benefício é para todos, independentemente de sua posição favorável ou contrária ao trabalho de evangelização, além disso, semeia-se o Evangelho sobre alguém da própria região que dará sequência à plantação da Igreja ali.

A solução para a falta de água na Região consistia na criação de uma “barragem invertida” para retenção do fluxo de água do lençol freático. Simples assim. E, muito mais importante, centenas de vezes mais barato do que se fosse o Governo metendo a mão ali para fazer aquela obra. “Posso fazer uma pergunta?”, disse desconfiado. “Você falou que isso é feito graças a um grupo de Igrejas que financiam o custo da obra, mas vocês também criaram uma ONG para essa ação social, não foi?”, preparei o terreno para a indagação derradeira. “Se vocês fazem esse trabalho da construção do poço (já foram feitos por eles mais de 10 no sertão nordestino), cada poço atende comunidades de 300 até 400 pessoas, mas o fazem como ONG, então com quanto de verba e qual a parceria que vocês fazem com o Estado?”, perguntei, finalmente chegando à caixa de Pandora e insistindo que a abrisse para que a verdade fosse revelada a todos ali. Todavia, inesperadamente, recebi um retumbante “nenhum dinheiro, nenhuma parceria, apenas igrejas”, como resposta!

A TMI em seus projetos e na sua visão de dar conta da demanda social do mundo, ao contrário do que descrevi acima, compreende que o outro tem que ser levado à caridade forçosa, pois o problema do mundo não é "apenas" (!!!) espiritual, mas material. Assim, se eu não posso controlar o resultado do Evangelho, pois não há como prever quem receberá e quem não receberá Jesus como salvador, para, então, trabalhar com esses convertidos, a solução é que eu force o outro para que ele “ame o próximo”. Mas como forçar o outro a amar o próximo, como força-lo a cuidar do outro? É do ferramental marxista que se retirará todo esse “amor”. Qual será a aliança proposta pela TMI? A criação do que eu chamo de “diabolicíssima trindade”: Igreja – Estado -Democracia!

A questão que se deve enfrentar aqui é a seguinte: É certo que você defina o que seja a melhor sociedade para o outro e que o Estado use a Igreja (ou que o missionário use a Igreja ou que esta se iluda pensando estar usando do Estado) para impor o seu modelo de “melhor sociedade” sobre o outro por meio da lei?

Porque só há uma maneira de fazer “parceria” com o Estado: pela lei! O Estado entra nessa parceria como o poder para impor o projeto marxista religioso da TMI de forçar a sociedade a resolver os problemas do outro. Daí, para o adepto da TMI, os exemplos que irão superabundar em seus discursos são Cuba, França e Suécia ou qualquer outro Estado que tenha imposto sobre o seu cidadão a igualdade social, que é para a visão marxista religiosa o suprassumo do exemplo de amar o próximo como a si mesmo. Ora, a realização dessa artificialidade amorosa revela não um ethos cristão, mas o ethos de barrabás.

Todavia, em que podemos tomar Cuba, França e Suécia como exemplos de que a igualdade social, imposta pelo Estado sob a farsa da “democracia”, é a solução para a angústia humana? Ao contrário, estes e quaisquer outros países – e o Brasil é um deles – que têm usado o Estado para impor a igualdade social, na realidade, são exemplos da artificialidade e da bolha de sabão que é tratar o ser humano sob o viés econômico. Justificar ditaduras como Cuba, fechar os olhos para a falência econômica e moral da França, e não enfrentar o vazio da angústia presente em modelos “igualitários” de países como a Suécia, que apresentam um alto índice de suicídios, é a fantasia mítica crida pelos ideólogos esquerdistas da TMI.

E o que é o Estado? O Estado moderno é um mito! O Estado moderno é um polvo monstruoso cujos tentáculos avançam sobre a vida comum e privada dos indivíduos, extrapolando, assustadoramente, os limites bíblicos impostos a esse Estado. Embora não seja o foco deste artigo aprofundar nessas considerações, é preciso que, ao menos, se esclareça que o “Estado de direito”, conforme o conhecemos hoje, é o próprio Leviatã criado por Weber, que investiu nos rumos da centralização consentida, por Marx, que apoiou o Estado sobre a dinâmica de uma hegemonia classista; e por Durkheim, que engendrou o Estado como essa ficção coletivista, na qual temos que crer.

A democracia entra na diabolicíssima trindade para dar aquele ar de que é “vontade do povo” tudo isso que está sendo feito. A democracia cria essa ilusão de que é a maioria que escolhe a direção que está sendo seguida. Este é um outro mito que não resiste a qualquer mínima avaliação histórica de como a democracia, na verdade, tem sido o sistema para entronização do anticristo e de suas políticas públicas de bem-estar social. Aliás, nada mais marxista do que a democracia. “A democracia é a estrada para o socialismo”, pregava Marx. A democracia entra na receita do bolo, porque o Estado tem que criar a ilusão de que sua manipulação, que leva a uma obediência generalizada, não se dá por meio da coerção.

Na contramão da História, a TMI prega a aliança entre o Estado e a Igreja, mas em qual lugar essa relação obscena trouxe resultados benéficos para a missão da Igreja? No Império Romano? Na Idade Média? Nas Grandes Navegações? Nos Estados Absolutistas? No Nazismo? Na Europa? Não! Este casamento licencioso existe apenas na cabeça dos ideólogos da TL e da TMI, que acreditam que podem cobrar do Estado que violente o seu cidadão à uma relação de caridade e amor com seu próximo por meio do uso da lei! Eu mesmo conheço trabalhos missionários em que a Igreja entregou a sua mão em casamento para o Estado e ela hoje paga um alto preço, porque isso não é casamento, mas adultério. E, nessa relação, o Estado usa o nome da Igreja, conseguindo, por causa disso, acesso a regiões no interior do Brasil que antes Ele não tinha. Entretanto, usando o nome da Igreja, o Estado silencia a pregação da mesma (sim, no Brasil, eu li o memorando!) e ainda por cima a envolve em escândalos que os próprios funcionários públicos, que são contratados do Estado, mas que não são evangélicos, criam!
 
Portinari na Igreja da Pampulha: obra representativa do marxismo cultural
Os adeptos da TMI gostam de repetir uma frase que, para mim, é simbólica sobre aquilo que é esta teologia de missões: “Pregue o Evangelho o tempo todo. Se necessário, use palavras”! Esta frase é sempre atribuída a Francisco de Assis. Além dela nunca ter sido dita por este santo católico, a frase é uma afronta ao querigma bíblico. Todavia, revela-se mais uma vez o ethos que anima a TMI, que é a práxis marxista.

Enfim, a TMI erra o alvo daquilo que é a própria natureza da Igreja, que não é “fazer missões”, mas glorificar a Deus! Se a TMI colocasse como premissa sustentadora de sua natureza a glória de Deus de fato, jamais ela fornicaria com o Estado e com a democracia para atingir os fins que ela julga corretos.

A TMI revela uma face legalista, autoritária e coerciva, que nasce exatamente de seus pressupostos marxistas e filosóficos. Ela é favorável ao inchaço, ao crescimento do Estado para que ele imponha em todos os setores a caridade e o amor cristãos. E isto, decididamente, não é o Evangelho da liberdade em Cristo. Pois, bem ao contrário, o Evangelho livra-nos exatamente dessa relação amedrontada com a lei. “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como eu amo a mim mesmo” sempre foram a lei de Deus, todavia, a prática dessa lei nunca foi por meio da Monarquia Israelita ou pela manipulação opressiva dos fariseus hipócritas. A lei nunca me salvou de “amar” o próximo por motivos egoístas e equivocados, mas Jesus me salva de usar a lei para fins egoístas e equivocados. Não é e nunca será pelo uso estatal da lei que amarei ao próximo – isto não é Missão!

Missão é descobrir-se amado por Deus por meio de Jesus! E este amor de Deus por mim leva-me a duas atitudes: amar a mim mesmo e ao próximo com o mesmo cuidado que dedico a mim. Esta é a lei – e não a Constituição Federal de quaisquer países ou psicologismos e filosofices antropocêntricas  – essa lei é aquela que nasce não da ação do Estado “evangelizador”, mas da pregação da Igreja sofredora sob o poder do Espírito Santo.

Finalmente, vem à tona porque considero a TMI muito mais perigosa do que a TP que a própria TMI tanto ataca. A TP é um erro, um conjunto de heresias que, assim como quaisquer outras heresias, ela é oferecida àqueles que desejam o que o mercado da prosperidade financeira religiosa tem a oferecer. À luz de Tiago 1: 14-15, a TP atrai o homem pela própria concupiscência desse mesmo homem. Na TP, é oferecida a mentira e esta pode e deve ser combatida pela verdade do Evangelho. Porém, mais do que evangelizar, educar, conscientizar, redarguir, corrigir, instruir em justiçaa Igreja não foi chamada a fazer. 

Do outro lado, há a TMI, que identifica qual o desejo do homem e oferece também uma mentira, que é o evangelho de Barrabás – o paraíso na terra já. Entretanto, não há na TMI o espaço para a escolha do indivíduo, mas o uso do Estado por meio da coerção da lei para que, sobre tudo e sobre todos, seja feita a sociedade igualitária. E aqui, nada mais emblemático do que ter ouvido do adepto da TMI que “liberdade, fraternidade e igualdade é a Missão da Igreja”. Portanto, quem tem ouvidos para ouvir, que ouça.

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Livros que indico:

Filmes:
A revolta da saia (trailer).

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