terça-feira, 18 de julho de 2017

A TMI e a formação da diabolicíssima trindade (parte 3)



Freud foi ateu. Marx foi satanista. Heidegger foi nazista. E achar que nada disso depõe contra ou que, de forma alguma, influencia nas suas produções intelectuais é o mesmo que fechar os olhos para o fato de Kinsey ter sido poliamoroso, Foucalt ser adepto de relações sexuais masoquistas e Simone de Beauvoir ser pedófila. No mínimo, crendo na sentença bíblica de que “Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só" (Romanos 3:10-12), teríamos que olhar para a vida desses homens e de outros e, no mínimo, suspeitar se eles não estariam legislando em causa própria com seus trabalhos. Todavia, não são esses autores o foco desta série de artigos, ainda que eles sejam admirados pela intelectualidade da chamada esquerda cristã e buscados como resposta para as angústias do ser humano na modernidade (no fim deste post, indicarei alguns livros que são literatura obrigatória para sua introdução na abordagem deste parágrafo).

Mas o que fazer, então, diante do homem angustiado, alienado pelas relações trabalhistas do dia a dia? O homem que precisa encontrar a sua identidade diante de uma sociedade que o massifica e o coisifica? Nas palavras de Ariovaldo Ramos, não adianta tirar o homem do inferno, é preciso tirar o inferno do homem. Em outras palavras: só o Evangelho não basta! Se o Evangelho é impotente para a transformação eterna e real do homem, se o Evangelho é incapaz de arrancar esse homem da sua angústia e perda de identidade, se o Evangelho é “apenas” a salvação da alma, então é urgente e preciso que a Igreja complete o que o Evangelho deixou pela metade. Mas o que é isso, afinal, que o Evangelho não resolve? Ora, se o Evangelho é apenas o desatar das amarras eternas do homem diante de sua cadeia universal e eterna, é preciso que esse indivíduo também seja desatado da miséria econômica, política e social que o oprime - esta é a tese da esquerda cristã.

O adepto da TMI se coloca no pátio diante de Pôncio Pilatos e exige que ambos os condenados sejam libertos: o Evangelho que salva a alma e o outro evangelho, que nos salvará da opressão romana. A TMI, portanto, corrobora com o espírito deste século reafirmando a tese materialista de que a origem da angústia humana não é a sua inimizade com Deus, mas é o cárcere da opressão da fome, da injustiça e da desigualdade social. O adepto da TMI quer tudo: Jesus e Barrabás livres!

Se o Evangelho de Jesus não avançar contra a carne e o sangue pouco importa que o faça sobre as potestades e principados deste mundo tenebroso – esta é a pregação da Teologia da Libertação, que, como exemplo, sempre teve Dom Pedro Casadáliga e o movimento revolucionário do CIMI (Conselho Indigenista Missionário) como defensores do uso de armas e invasão de terras como meios louváveis de se conquistar a igualdade social e a autonomia do outro. A falha constatada pela interpretação esquerdista é que a Igreja reduziu o Evangelho a um mero discurso espiritualista e isso foi o grande responsável pela derrocada da Europa e da África. Uma cruz não se faz com apenas uma trave de madeira vertical, é preciso a trave horizontal para que a mensagem seja completa: foi o amor ao próximo, o cuidado com o outro, a grande falha desse projeto missionário espiritualista, segundo o adepto da TMI. Todavia, isso é uma brutal distorção da história. O que não deve surpreender, uma vez que é comum ao esquerdismo a releitura ideológica do passado. O problema é ver a Igreja corroborando e aceitando essas mentiras.

Ainda que o paganismo tenha sido fortemente impactado e derrotado pela misericórdia cristã, ainda que hospitais cristãos tenham sido espalhados por toda a Europa e continentes carentes mundo afora, mesmo que a presença maciça das “casas de misericórdia” no interior do Brasil e tantas outras ações humanitárias do cristianismo estejam aí atestando o poder de um Evangelho que não dispensa o homem na paz do Senhor sem também lhe oferecer o pão para o corpo; mesmo que a Igreja Brasileira, sem abraçar a teoria marxista da esquerda cristã, esteja encabeçando projetos sociais de profunda mudança na vida de pessoas sofridas no sertão nordestino, como é o caso do trabalho de criação de reservatórios de água feitos por cristãos que não se renderam à proposta ideológica da esquerda cristã; a despeito dessa realidade histórica de um cristianismo que sempre trouxe mudança total ao indivíduo nestes 2000 anos de cristandade, resgatando mulheres e crianças da opressão e da exploração, sua luta pelo fim da escravidão dos negros, a luta pelo fim do apartheid na América, enfim, é uma lista infinda da ação total de um Evangelho total de poder sem Marx e sem Gramsci. Entretanto, de repente, para o cristão marxista, o Evangelho é um veículo opressor de almas que foram salvas enquanto seus corpos eram lançados ao fosso do esquecimento. 

Como já disse, a distorção da história é outra característica da mentalidade revolucionária que emana dos centros disseminadores do Evangelho de Barrabás. E esta distorção histórica é fácil de se compreender pelo motivo citado no post anterior que é o uso do método científico sobre a realidade da vida humana: o cientista recorta uma realidade e a analisa, lançando sobre o todo as conclusões a que chegou a partir de uma análise feita numa parte. Evidentemente, que o uso farto desse instrumento pelos ideólogos da revolução cristã gerou um discurso e uma prática que manipulam e interpretam os fatos a seu favor. Cabe a pergunta: o cristianismo nunca se viu usado para a opressão do outro? Evidentemente! Porém, a história prova que o marxismo em qualquer dos seus vieses é uma máquina assassina e genocida em nome da igualdade e o Evangelho jamais poderia sequer acatar quaisquer uma de suas pressuposições, por mínima que fosse, uma vez que o preço pago pelo sincretismo do cristianismo com o marxismo e seus filhotes liberais é um fato demoníaco na história recente da humanidade.   

Mais uma vez, ainda que pudesse me aprofundar em todos esses temas, há muita literatura disponível sobre o que estou lançando aqui e caberá ao leitor percorrer por si mesmo os caminhos que eu tenho trilhado nos últimos dez anos. Não posso tornar as digressões, por mais importantes que elas sejam para a compreensão do todo, o meu tema principal, que, na verdade, é a formação da diabolicíssima trindade. Todavia, o mínimo que já expus aqui ajuda-nos a ver o quadro que será usado para a formação de uma aliança necessária para que a esquerda cristã consiga alcançar seus objetivos.

(Continua...)

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