sexta-feira, 30 de junho de 2017

A fé romana comparada à fé reformada a partir dos sermões de Leão Magno (3ª e última parte): julgados pela fé ou pela misericórdia?

"Juízo Final", de Hans Meling, século XV
Neste último post, gostaria de lembrar que, enquanto eu estava lendo os sermões de Leão Magno, sempre me vinha à mente uma situação que vivi durante minhas aulas no Seminário Presbiteriano em Brasília entre o ano de 2000 e 2005. 

Minha memória foi despertada graças às inúmeras idas de Leão ao texto de Mateus 25:31ss. Portanto, lembrei-me de um professor, pastor presbiteriano, que, em determinada aula, disse que havia textos da Bíblia que ele mesmo não sabia o que eles queriam dizer ou que mostravam que as nossas interpretações protestantes eram falhas. Um dos textos por ele referido foi exatamente a passagem de Mateus, a qual ele dizia mostrar que a salvação era pelas obras (!!!). 

Evidentemente, como ex-católico romano, tendo estudado para ser padre, ouvir aquela asneira por parte de um professor de um seminário teológico e, o que para mim foi ainda pior, diante de uma sala que permaneceu silenciosa, incomodou-me profundamente. Assim, tive que compartilhar com ele o porquê que eu não poderia jamais concordar com aquela posição. Em outras palavras, vi-me tendo que ensinar a missa para o vigário. Veja minha explicação:

Creio que, primeiramente, uma das coisas mais importantes que precisamos fazer é situar a passagem evangélica em questão. Destarte, o Evangelho de Mateus está organizado ao redor de cinco blocos discursivos de Jesus, ou seja, cinco grandes sermões, cada qual com seu objetivo específico. E o nosso texto em questão se encontra no último desses blocos, exatamente nos momentos finais do ministério de Jesus.

Este é o contexto maior: Mateus apresenta aos seus leitores quem é o Rei. O Reino desse Rei possui leis (1º sermão: 5:1 – 7:29); esse reino possui uma missão (2º sermão: 10:1 – 42); possui ensino (3º sermão: 13:1 – 58); esse reino apresenta sua natureza e autoridade específicas (4º sermão: 18: 1- 35); e, finalmente, o reino será plenamente estabelecido no retorno do Rei, que virá para julgar vivos e mortos (5º sermão: 24: 1 – 25: 46). Portanto, o nosso texto em questão é o último pregado antes do encerramento do último bloco.

A parábola do grande julgamento é antecedida por 4 parábolas (a da figueira, a do bom servo e do mau, a das dez virgens, e dos talentos). A parábola da figueira traz um aspecto de julgamento universal, assim como ocorreu no tempo de Noé. Este pregou, mas as pessoas não responderam positivamente à mensagem. É o mundo descrente que rejeita a pregação do Evangelho e vive sem esperar o julgamento, mas este virá “sem que eles percebam”, diz o texto.

Nas 3 parábolas seguintes à da figueira, vemos pessoas que arrefeceram na sua espera, pessoas que conviviam com outras que também eram conscientes da mensagem e todas “sabiam que o senhor, o noivo, o patrão, que eles iriam voltar”. A moldura para as parábolas é o discurso anterior de Jesus, chamado de “discurso profético”, no qual Jesus trata sobre a destruição do templo, o princípio das dores, a grande tribulação e a vinda do Filho do Homem. Assim, as parábolas servem para ilustrar o próprio julgamento daquela geração (a destruição de Jerusalém), mas também a vinda inesperada do Filho do Homem para o grande julgamento de todas as nações. 

A Parábola do grande julgamento, semelhantemente às outras anteriores, fala de pessoas que ouviram a mensagem de que o Filho do Homem iria voltar. Acredito que isso aponta para o fato que o mundo todo já terá sido evangelizado antes da volta do Filho do Homem (veja Mateus 24:14) Não há nas parábolas nenhum grupo reclamando que não havia ouvido a mensagem. Não há ninguém alegando ignorância. O que há é preguiça, maldade, negligência, imprudência, falta de serviço e mordomia pelas coisas do reino e, por essas coisas – frutos da falta de fé e do esfriamento do amor (veja Mateus 24:12) – as pessoas estão sendo julgadas naquelas narrativas contadas por Jesus. Se isso o que eu acabei de falar é verdade nas quatro parábolas, também o será na parábola do grande julgamento. E esse quadro se encaixa perfeitamente com a situação dos judeus que conheciam as Escrituras e não podiam alegar ignorância quanto a vinda do messias prometido. Do mesmo jeito que as parábolas descreviam o judaísmo do tempo de Jesus, também apontavam para a situação que Jesus encontrará na sua segunda vinda. Lembre-se que é o Evangelho de Mateus que faz questão de mostrar ao leitor “a ilegalidade das ações do Sinédrio, a perversão do Antigo Testamento pelos escribas e fariseus e a natureza pactual no modo de Deus tratar com o seu povo” (Bíblia de Genebra, p. 1228) – é debaixo desse grande quadro que estamos. De um modo específico, os judeus estão sendo julgados diante da sua postura para com Jesus, mas, de um modo global, as pessoas do planeta terra serão julgadas pelo mesmo crivo quando esse mesmo Jesus voltar: a sua postura diante de Jesus e da sua mensagem!

Na parábola da figueira, a partir da analogia com o tempo de Noé, vemos que as pessoas serão julgadas por não terem dado atenção à mensagem do patriarca. Noé fora um tipo do Cristo e, assim como as pessoas em seu tempo não deram crédito a ele, as pessoas no tempo de Jesus também não estão dando crédito a Jesus – e este é o crivo! Na parábola do bom servo e do mau (Mateu 24:45ss), o servo que receberá a punição, diz o texto, começara a “espancar os seus companheiros” e a ter uma conduta de vida libertina, “porque ele era mau”! Na parábola das dez virgens, as cinco são punidas por “não esperarem com zelo, elas foram imprudentes, elas não estavam preparadas” para a volta do noivo. Na parábola dos talentos, também não houve esforço, não houve dedicação, zelo durante a espera da volta do senhor.

Tendo tudo isso em mente, vamos nos aproximar do texto e compreender o que realmente ele está falando. A pergunta que quero responder é: seremos salvos pela fé no sacrifício de Cristo ou pela misericórdia praticada ao próximo? Leiamos o texto abaixo de Mateus 25:

"31.Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os anjos com ele, sentar-se-á no seu trono glorioso. 32.Todas as nações se reunirão diante dele e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. 33.Colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. 34.Então o Rei dirá aos que estão à direita: - Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo, 35.porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; 36.nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim. 37.Perguntar-lhe-ão os justos: - Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? 38.Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos? 39.Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar? 40.Responderá o Rei: - Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes. 41.Voltar-se-á em seguida para os da sua esquerda e lhes dirá: - Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos. 42.Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; 43.era peregrino e não me acolhestes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes. 44.Também estes lhe perguntarão: - Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, peregrino, nu, enfermo, ou na prisão e não te socorremos? 45.E ele responderá: - Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer. 46.E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna." 

São Mateus, 25 - Bíblia Católica Online
Leia mais em: http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/sao-mateus/25/

Lembre-se que o discurso anterior às 4 parábolas de Jesus aponta tanto para o julgamento daquela geração como também para o julgamento de todas as nações. Na parábola da figueira, Jesus relembra que em Noé houve um julgamento global. Nas 3 parábolas seguintes, houve um julgamento bem mais específico de pessoas que “esperavam” a vinda (ou a volta) de alguém. Finalmente, a parábola do grande julgamento retrata um contexto global! Mas o critério para o julgamento sempre é o mesmo: a aceitação de Jesus e sua mensagem! Jesus está presente ali diante dos judeus e eles estão sendo julgados por isso, assim como as pessoas do tempo de Noé também foram julgadas, pois o patriarca representava a Jesus! Todavia, como as pessoas do mundo serão julgadas na 2ª vinda de Jesus? Quem, à semelhança de Noé, pregará a mensagem da salvação e representará Jesus no mundo? Você sabe a resposta e é sobre isso o que nos fala a parábola do grande julgamento. 

As 5 parábolas estão inseridas no nosso tempo – no tempo de Noé, no tempo dos judeus e no tempo da volta do Filho do Homem – as pessoas são julgadas de acordo com o que fizeram diante da mensagem ouvida. Na parábola do grande julgamento, e espero que o próprio contexto de tudo o que foi dito até agora já tenha mostrado que em nenhum lugar estamos falando de salvação pela misericórdia, as pessoas serão divididas em dois grupos de acordo com a postura que tiveram diante da mensagem de Jesus pregada pelo seu representante na terra, a saber, a Igreja. Na parábola, que se localiza na volta de Jesus, há três grupos de pessoas: dois grupos estão sendo julgados e o outro está sendo usado como critério para esse julgamento. Quem é este último grupo? O pobre? O doente? O sedento? Qualquer pobre? Qualquer doente? Qualquer sedento? É claro que não! Pois, fosse assim, todos os que praticam a caridade e a misericórdia com essas pessoas seriam salvas na volta de Jesus! E este ensino é uma heresia!

Quem, então, está preso? Quem, então, está doente? Quem, então, está sedento e nu? Quem anda pelo mundo sem ter onde colocar a cabeça? A resposta não pode ser qualquer pessoa, como afirma Leão Magno, pois a salvação não é pelas obras e nem seria possível afirmar que Jesus está presente nesses segmentos desfavorecidos da parábola. Esta interpretação foi fortemente usada pelo marxismo católico e evangélico, mas é um entendimento totalmente contrário às Sagradas Escrituras. Deus não muda as regras do jogo na história: quando Abraão (o representante de Jesus para os povos) foi chamado em Gênesis 12, ele foi chamado também para ser usado como critério no julgamento dos outros: “abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem: em ti serão benditas todas as famílias da terra”!

Deus continua agindo da mesma maneira que sempre agiu! É por meio da nossa resposta a Jesus e a sua mensagem que somos julgados: Noé e Abraão eram tipos de Cristo. Os judeus no tempo de Jesus estavam sendo julgados pela mensagem que ouviram por toda a Escritura e que Jesus está repetindo! Do mesmo modo, Jesus continua pregando por todos os povos até o dia da sua volta, mas quem prega? O representante de Jesus na terra: a Igreja. E ela, em sua missão de pregar, tem passado fome, tem tido sede, tem andado pelo mundo sem ter onde recostar a cabeça, tem sofrido carência material, tem enfrentado doenças e sido lançada nas prisões! Mas, enquanto tudo isso ocorre, ela não para de pregar e muitos têm reconhecido na Igreja a verdade da salvação e tem, por causa da sua fé, acolhido e se identificado com a Igreja. E estes é que serão anexados à igreja, que serão salvos porque acolheram a Igreja, crendo em sua mensagem! Resumindo: o mundo será julgado pela fé que demonstrará diante da mensagem pregada pela Igreja. 

Especificadamente, para essa minha interpretação, há duas palavras às quais quero chamara a atenção ainda: 

Outras versões para o verso 40:

"et respondens rex dicet illis amen dico vobis quamdiu fecistis uni de his fratribus meis minimis mihi fecistis" 
São Mateus, 25 - Bíblia Católica Online
Leia mais em: http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria-vs-vulgata-latina/sao-mateus/25/

"Et le roi leur répondra: Je vous le dis en vérité, toutes les fois que vous avez fait ces choses à l`un de ces plus petits de mes frères, c`est à moi que vous les avez faites." 
São Mateus, 25 - Bíblia Católica Online
Leia mais em: http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria-vs-biblia-de-jerusalem/sao-mateus/25/

"καὶ ἀποκριθεὶς ὁ βασιλεὺς ἐρεῖ αὐτοῖς, ἀμὴν λέγω ὑμῖν, ἐφ᾽ ὅσον ἐποιήσατε ἑνὶ τούτων τῶν ἀδελφῶν μου τῶν ἐλαχίστων, ἐμοὶ ἐποιήσατε." 
São Mateus, 25 - Bíblia Católica Online
Leia mais em: http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria-vs-septuaginta/sao-mateus/25/

40.Responderá o Rei: - Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.

“Irmãos” e “pequeninos”. A primeira deveria nos colocar diante de duas opções: ou todos os desfavorecidos são irmãos de Jesus e carregam em si a sua imagem e, portanto, serão usados como critério para a salvação pelas boas obras que forem alvo ou, o que é mais coerente com a mensagem do Novo Testamento, Jesus está se referindo aos seus representantes, neste caso, a Igreja e ela sim será usada como critério para o julgamento do mundo (veja: I Cor 6:2 e  Mateus 12: 47-50). 

A palavra “pequeninos” (no grego: ἐλαχίστων) é usada mais outras 2 vezes por Mateus e no sentido depreciativo (sob a ótica do outro, claro, como é exatamente o caso da parábola do grande julgamento, veja: 2:6 e 5:19a). E ainda uma terceira vez, em Mateus, pelo próprio Jesus, também em sentido depreciativo, mas aplicando a palavra não à cidades ou traços da escrita, como foi nos casos anteriores, mas àqueles que ensinarem errado a lei aos seus irmãos. Estes mestres irresponsáveis serão considerados mínimos (pequeninos: veja, a palavra aqui se refere aos seguidores de Jesus) no reino dos céus (5:19b). Cabe, porém, ressaltar que os dicionários apontam um sinônimo para ἐλαχίστων: “mikros”, palavra que é intercambiada em outros contextos de mesmo significado, mas, e isso é o mais importante, no mesmo sentido que “discípulos de Jesus”, que é o usado na parábola do grande julgamento. Veja: Mateus 10: 42, 11:11, 18:6ss). Mas para que não haja dúvida do uso de ἐλαχίστων aplicado também ao discípulo de Jesus, é isso o que, ao falar de si mesmo, Paulo faz em I Cor 15:9. Finalmente, todo este parágrafo vai ao encontro da passagem de Atos 9: 1-9, na qual Jesus se identifica com a Igreja que Paulo está perseguindo, açoitando, lançando nas prisões e mandando matar. Aliás, este é exatamente o contexto da parábola do grande julgamento.

Leia todos os textos anteriores: 


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