terça-feira, 27 de junho de 2017

A fé romana comparada à fé reformada a partir dos sermões de Leão Magno (1ª parte)

Igreja Presbiteriana Nacional, Brasília:
a Igreja em que fui ensinado sobre o Evangelho da Graça
Enquanto lia os sermões de Leão, na minha mente sempre vinham duas coisas: 1) a minha própria experiência como ex-católico romano e uma aula de Sproul sobre a teologia reformada, que deixarei no final deste post, mas o ponto mais importante aqui é a aula “somente pela fé” (vídeos 4 e 5).

Nos sermões de Leão fica claro que a salvação é pela fé na cruz de Cristo, não há outra via! Entretanto, o sacrifício de Jesus é como o abrir a porta do céu. Assim, o que é impossível ao homem foi possível a Jesus: ele abriu a porta do céu a toda a humanidade. Nisto concordam católicos e reformados. A diferença está na extensão dessa doutrina, na verdade, a diferença está na extensão do poder do sangue de Jesus.

A morte de Cristo, o seu sangue derramado, o sacrifício do cordeiro é apenas para possibilitar o impossível ou estende-se também para garantir esse impossível? Garantir contra toda “tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada?” (Romanos 8: 35b). O sangue de Cristo é apenas pontual, agindo em nosso favor contra a condenação do pecado original, mas ineficaz contra os meus pecados posteriores e diários? Como pode um poder tão imenso, capaz até mesmo de destruir as amarras da condenação eterna, fraquejar diante dos meus pecados cometidos diariamente?

A fé católica manifestada nos sermões de Leão declara que o sangue de Jesus tem poder para me unir a Deus novamente, mas essa mesma fé (só ela) não consegue manter essa união diante do fato de que eu continuo pecador! E é aqui que entra o abismo que separa a fé católica da fé romana: para esta, eu preciso fazer obras de misericórdia (e elas são mais importantes do que o exercício de quaisquer outras virtudes para Leão) para garantir o que Jesus conquistou para mim na cruz. Daí, em seus sermões, expressões como: “...aquele que alimento o Cristo no pobre, constrói seu tesouro no céu”, “...e pelo serviço de tuas boas obras... tu sejas libertado de teus múltiplos pecados”, “as esmolas cobrem uma multidão de pecados”, “qualquer culpa contraída durante a permanência terrestre é apagada pelas esmolas”, “...o alimento dado ao pobre é o preço do reino dos céus e aquele que distribuir seus bens temporais torna-se herdeiro dos eternos”, “o que doa aos pobres alcança libertação da condenação”, etc. Dizer, por exemplo, que “as esmolas purificam e apagam nossos pecados” é muito diferente do que justificar que a verdadeira fé produz boas obras, que é um dos pontos de controvérsia entre católicos e reformados. Que a fé sem obras é morta não há dúvida, mas daí dizer que suprir a necessidade dos pobres realiza o perdão dos pecados e a pureza do coração já é um ponto distante demais do texto de Tiago.

Olhando para o momento histórico de Leão (ver o post sobre isso aqui), eu me pergunto como o Cristianismo chegou a esse ponto (estamos na metade do século V). E eu vou dar algumas razões pessoais a partir de agora.

“Existe mais perigo num traidor escondido do que num inimigo manifesto”, declara Leão Magno. Aplicando isso ao Cristianismo, vemos que ele foi muitíssimo competente quanto aos inimigos manifestos do gnosticismo, porém, sucumbiu diante de um traidor escondido: o sincretismo com o estoicismo.

Sincretismo é a inserção de elementos estranhos ao Evangelho puro e simples, é a adequação, acomodação e, até mesmo, fusão com elementos contrários ao espírito evangélico. Dito isso, não podemos esquecer que o Cristianismo recebeu em seu nascedouro pelo menos 3 grandes influências: o judaísmo em toda sua diversidade, a filosofia clássica (principalmente Platão e Aristóteles) e a filosofia helênica, da qual o estoicismo advém. Além do estoicismo, a filosofia helênica produziu também as escolas do epicurismo e do cinismo. Contudo, quero concentrar-me na influência do estoicismo, principalmente na sua fase concomitante ao cristianismo já nascido (Atos 17: 18).

O Estoicismo com o qual o Cristianismo se encontrou foi, de maneira majoritária, o estoicismo de Sêneca (4-65 d.C.), que demarcou a oposição entre o corpo e a alma e, por causa disso, acredito eu, é grande responsável pela ênfase posterior do Cristianismo na questão da virgindade e do celibato como caminhos mais elevados para o alcance da santidade. O estoicismo já aparece desde Tertuliano (155 – 215 d.C.), mas, seguindo a série da Patrística, o próprio comentarista afirma ver sua influência em Ambrósio (tratei aqui). Assim, essa perspectiva de repressão dos desejos sexuais é resultado não do Cristianismo, mas da influência do Estoicismo. Estoicos como Marco Aurélio são admirados por muitos cristãos até hoje exatamente por que sua ética reflete o espírito da ética cristã, todavia, numa ênfase errônea desencadeou uma postura diante da sexualidade que influenciou muitos Pais Apostólicos. Desse sincretismo vemos a ênfase na virgindade perpétua de Maria, defendida fortemente por Ambrósio, a ideia da relação sexual como mácula, presente nos Sermões de Leão Magno e, consequentemente, a construção de uma mariologia que proteja Maria disso tudo.

Entretanto, eu não vejo o estoicismo apenas influenciando a visão cristã no aspecto da sexualidade, mas também na ênfase desequilibrada da misericórdia, pois, para os estoicos, a misericórdia purificava a alma. Esta é uma doutrina estoica e não evangélica! Todavia, somada à influência da cultura helênica, um outro fator permitiu que o helenismo entrasse sorrateiramente – este inimigo oculto –  nas veredas do cristianismo: os livros deuterocanônicos, principalmente, o de Tobias, Sabedoria e Eclesiástico, todos usados por Leão Magno e que são fonte também de doutrinas como a esmola para a salvação da alma.

E aqui há um outro ponto: ninguém percebeu que eram doutrinas contraditórias? Se o sangue de Jesus justifica o pecador, como afirma Leão Magno, como que a esmola pode salvar o pecador já justificado? Exatamente porque a salvação realizada por Jesus se limita a “abrir a porta”, mas para garantir a passagem é preciso as boas obras, que, neste ponto, não são fruto da fé verdadeira, mas garantia de manter aquilo que a cruz conquistou. É uma Graça limitada, portanto. Mas por que isso se deu na história do Cristianismo? Minha resposta é múltipla: 1) o sincretismo com a cultura helênica e sua filosofia; 2) a presença dos deuterocanônicos como Escritura; e 3) o foco da Igreja naquele momento histórico não permitiu que as pessoas olhassem para este ponto: as discussões ainda eram sobre a Trindade, a cristologia e a pessoa do Espírito Santo; também se discutia sobre o primado da Sé romana sobre as demais igrejas; a tensão nas relações da Igreja do Ocidente com a do Oriente; combatia-se as heresias que haviam ressurgido; e, ainda, enfrentava-se o declínio do Império Romano diante das invasões bárbaras. Por tudo isso, além do pecado de orgulho e vaidade dos personagens envolvidos, os inimigos ocultos foram sendo assimilados pelo cristianismo, preparando, na verdade, o combustível para a Reforma Protestante. Contudo, não podemos esquecer que entre Leão Magno e a Reforma Protestante, bem no meio do caminho, um outro cisma ocorreu (ou melhor, se oficializou) em 1051: a separação entre a Igreja do Ocidente e a Igreja do Oriente. 

Porém, permanecendo no tempo de Leão Magno, eu ainda quero tratar de outras razões num próximo post, além do sincretismo com a cultura e filosofia helênicas, em especial o estoicismo, que explicam o nascimento da fé romana que será, finalmente, refutada na Reforma Protestante. 

O que é Teologia Reformada?

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