sexta-feira, 30 de junho de 2017

A fé romana comparada à fé reformada a partir dos sermões de Leão Magno (3ª e última parte): julgados pela fé ou pela misericórdia?

"Juízo Final", de Hans Meling, século XV
Neste último post, gostaria de lembrar que, enquanto eu estava lendo os sermões de Leão Magno, sempre me vinha à mente uma situação que vivi durante minhas aulas no Seminário Presbiteriano em Brasília entre o ano de 2000 e 2005. 

Minha memória foi despertada graças às inúmeras idas de Leão ao texto de Mateus 25:31ss. Portanto, lembrei-me de um professor, pastor presbiteriano, que, em determinada aula, disse que havia textos da Bíblia que ele mesmo não sabia o que eles queriam dizer ou que mostravam que as nossas interpretações protestantes eram falhas. Um dos textos por ele referido foi exatamente a passagem de Mateus, a qual ele dizia mostrar que a salvação era pelas obras (!!!). 

Evidentemente, como ex-católico romano, tendo estudado para ser padre, ouvir aquela asneira por parte de um professor de um seminário teológico e, o que para mim foi ainda pior, diante de uma sala que permaneceu silenciosa, incomodou-me profundamente. Assim, tive que compartilhar com ele o porquê que eu não poderia jamais concordar com aquela posição. Em outras palavras, vi-me tendo que ensinar a missa para o vigário. Veja minha explicação:

Creio que, primeiramente, uma das coisas mais importantes que precisamos fazer é situar a passagem evangélica em questão. Destarte, o Evangelho de Mateus está organizado ao redor de cinco blocos discursivos de Jesus, ou seja, cinco grandes sermões, cada qual com seu objetivo específico. E o nosso texto em questão se encontra no último desses blocos, exatamente nos momentos finais do ministério de Jesus.

Este é o contexto maior: Mateus apresenta aos seus leitores quem é o Rei. O Reino desse Rei possui leis (1º sermão: 5:1 – 7:29); esse reino possui uma missão (2º sermão: 10:1 – 42); possui ensino (3º sermão: 13:1 – 58); esse reino apresenta sua natureza e autoridade específicas (4º sermão: 18: 1- 35); e, finalmente, o reino será plenamente estabelecido no retorno do Rei, que virá para julgar vivos e mortos (5º sermão: 24: 1 – 25: 46). Portanto, o nosso texto em questão é o último pregado antes do encerramento do último bloco.

A parábola do grande julgamento é antecedida por 4 parábolas (a da figueira, a do bom servo e do mau, a das dez virgens, e dos talentos). A parábola da figueira traz um aspecto de julgamento universal, assim como ocorreu no tempo de Noé. Este pregou, mas as pessoas não responderam positivamente à mensagem. É o mundo descrente que rejeita a pregação do Evangelho e vive sem esperar o julgamento, mas este virá “sem que eles percebam”, diz o texto.

Nas 3 parábolas seguintes à da figueira, vemos pessoas que arrefeceram na sua espera, pessoas que conviviam com outras que também eram conscientes da mensagem e todas “sabiam que o senhor, o noivo, o patrão, que eles iriam voltar”. A moldura para as parábolas é o discurso anterior de Jesus, chamado de “discurso profético”, no qual Jesus trata sobre a destruição do templo, o princípio das dores, a grande tribulação e a vinda do Filho do Homem. Assim, as parábolas servem para ilustrar o próprio julgamento daquela geração (a destruição de Jerusalém), mas também a vinda inesperada do Filho do Homem para o grande julgamento de todas as nações. 

A Parábola do grande julgamento, semelhantemente às outras anteriores, fala de pessoas que ouviram a mensagem de que o Filho do Homem iria voltar. Acredito que isso aponta para o fato que o mundo todo já terá sido evangelizado antes da volta do Filho do Homem (veja Mateus 24:14) Não há nas parábolas nenhum grupo reclamando que não havia ouvido a mensagem. Não há ninguém alegando ignorância. O que há é preguiça, maldade, negligência, imprudência, falta de serviço e mordomia pelas coisas do reino e, por essas coisas – frutos da falta de fé e do esfriamento do amor (veja Mateus 24:12) – as pessoas estão sendo julgadas naquelas narrativas contadas por Jesus. Se isso o que eu acabei de falar é verdade nas quatro parábolas, também o será na parábola do grande julgamento. E esse quadro se encaixa perfeitamente com a situação dos judeus que conheciam as Escrituras e não podiam alegar ignorância quanto a vinda do messias prometido. Do mesmo jeito que as parábolas descreviam o judaísmo do tempo de Jesus, também apontavam para a situação que Jesus encontrará na sua segunda vinda. Lembre-se que é o Evangelho de Mateus que faz questão de mostrar ao leitor “a ilegalidade das ações do Sinédrio, a perversão do Antigo Testamento pelos escribas e fariseus e a natureza pactual no modo de Deus tratar com o seu povo” (Bíblia de Genebra, p. 1228) – é debaixo desse grande quadro que estamos. De um modo específico, os judeus estão sendo julgados diante da sua postura para com Jesus, mas, de um modo global, as pessoas do planeta terra serão julgadas pelo mesmo crivo quando esse mesmo Jesus voltar: a sua postura diante de Jesus e da sua mensagem!

Na parábola da figueira, a partir da analogia com o tempo de Noé, vemos que as pessoas serão julgadas por não terem dado atenção à mensagem do patriarca. Noé fora um tipo do Cristo e, assim como as pessoas em seu tempo não deram crédito a ele, as pessoas no tempo de Jesus também não estão dando crédito a Jesus – e este é o crivo! Na parábola do bom servo e do mau (Mateu 24:45ss), o servo que receberá a punição, diz o texto, começara a “espancar os seus companheiros” e a ter uma conduta de vida libertina, “porque ele era mau”! Na parábola das dez virgens, as cinco são punidas por “não esperarem com zelo, elas foram imprudentes, elas não estavam preparadas” para a volta do noivo. Na parábola dos talentos, também não houve esforço, não houve dedicação, zelo durante a espera da volta do senhor.

Tendo tudo isso em mente, vamos nos aproximar do texto e compreender o que realmente ele está falando. A pergunta que quero responder é: seremos salvos pela fé no sacrifício de Cristo ou pela misericórdia praticada ao próximo? Leiamos o texto abaixo de Mateus 25:

"31.Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os anjos com ele, sentar-se-á no seu trono glorioso. 32.Todas as nações se reunirão diante dele e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. 33.Colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. 34.Então o Rei dirá aos que estão à direita: - Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo, 35.porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; 36.nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim. 37.Perguntar-lhe-ão os justos: - Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? 38.Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos? 39.Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar? 40.Responderá o Rei: - Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes. 41.Voltar-se-á em seguida para os da sua esquerda e lhes dirá: - Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos. 42.Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; 43.era peregrino e não me acolhestes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes. 44.Também estes lhe perguntarão: - Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, peregrino, nu, enfermo, ou na prisão e não te socorremos? 45.E ele responderá: - Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer. 46.E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna." 

São Mateus, 25 - Bíblia Católica Online
Leia mais em: http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/sao-mateus/25/

Lembre-se que o discurso anterior às 4 parábolas de Jesus aponta tanto para o julgamento daquela geração como também para o julgamento de todas as nações. Na parábola da figueira, Jesus relembra que em Noé houve um julgamento global. Nas 3 parábolas seguintes, houve um julgamento bem mais específico de pessoas que “esperavam” a vinda (ou a volta) de alguém. Finalmente, a parábola do grande julgamento retrata um contexto global! Mas o critério para o julgamento sempre é o mesmo: a aceitação de Jesus e sua mensagem! Jesus está presente ali diante dos judeus e eles estão sendo julgados por isso, assim como as pessoas do tempo de Noé também foram julgadas, pois o patriarca representava a Jesus! Todavia, como as pessoas do mundo serão julgadas na 2ª vinda de Jesus? Quem, à semelhança de Noé, pregará a mensagem da salvação e representará Jesus no mundo? Você sabe a resposta e é sobre isso o que nos fala a parábola do grande julgamento. 

As 5 parábolas estão inseridas no nosso tempo – no tempo de Noé, no tempo dos judeus e no tempo da volta do Filho do Homem – as pessoas são julgadas de acordo com o que fizeram diante da mensagem ouvida. Na parábola do grande julgamento, e espero que o próprio contexto de tudo o que foi dito até agora já tenha mostrado que em nenhum lugar estamos falando de salvação pela misericórdia, as pessoas serão divididas em dois grupos de acordo com a postura que tiveram diante da mensagem de Jesus pregada pelo seu representante na terra, a saber, a Igreja. Na parábola, que se localiza na volta de Jesus, há três grupos de pessoas: dois grupos estão sendo julgados e o outro está sendo usado como critério para esse julgamento. Quem é este último grupo? O pobre? O doente? O sedento? Qualquer pobre? Qualquer doente? Qualquer sedento? É claro que não! Pois, fosse assim, todos os que praticam a caridade e a misericórdia com essas pessoas seriam salvas na volta de Jesus! E este ensino é uma heresia!

Quem, então, está preso? Quem, então, está doente? Quem, então, está sedento e nu? Quem anda pelo mundo sem ter onde colocar a cabeça? A resposta não pode ser qualquer pessoa, como afirma Leão Magno, pois a salvação não é pelas obras e nem seria possível afirmar que Jesus está presente nesses segmentos desfavorecidos da parábola. Esta interpretação foi fortemente usada pelo marxismo católico e evangélico, mas é um entendimento totalmente contrário às Sagradas Escrituras. Deus não muda as regras do jogo na história: quando Abraão (o representante de Jesus para os povos) foi chamado em Gênesis 12, ele foi chamado também para ser usado como critério no julgamento dos outros: “abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem: em ti serão benditas todas as famílias da terra”!

Deus continua agindo da mesma maneira que sempre agiu! É por meio da nossa resposta a Jesus e a sua mensagem que somos julgados: Noé e Abraão eram tipos de Cristo. Os judeus no tempo de Jesus estavam sendo julgados pela mensagem que ouviram por toda a Escritura e que Jesus está repetindo! Do mesmo modo, Jesus continua pregando por todos os povos até o dia da sua volta, mas quem prega? O representante de Jesus na terra: a Igreja. E ela, em sua missão de pregar, tem passado fome, tem tido sede, tem andado pelo mundo sem ter onde recostar a cabeça, tem sofrido carência material, tem enfrentado doenças e sido lançada nas prisões! Mas, enquanto tudo isso ocorre, ela não para de pregar e muitos têm reconhecido na Igreja a verdade da salvação e tem, por causa da sua fé, acolhido e se identificado com a Igreja. E estes é que serão anexados à igreja, que serão salvos porque acolheram a Igreja, crendo em sua mensagem! Resumindo: o mundo será julgado pela fé que demonstrará diante da mensagem pregada pela Igreja. 

Especificadamente, para essa minha interpretação, há duas palavras às quais quero chamara a atenção ainda: 

Outras versões para o verso 40:

"et respondens rex dicet illis amen dico vobis quamdiu fecistis uni de his fratribus meis minimis mihi fecistis" 
São Mateus, 25 - Bíblia Católica Online
Leia mais em: http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria-vs-vulgata-latina/sao-mateus/25/

"Et le roi leur répondra: Je vous le dis en vérité, toutes les fois que vous avez fait ces choses à l`un de ces plus petits de mes frères, c`est à moi que vous les avez faites." 
São Mateus, 25 - Bíblia Católica Online
Leia mais em: http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria-vs-biblia-de-jerusalem/sao-mateus/25/

"καὶ ἀποκριθεὶς ὁ βασιλεὺς ἐρεῖ αὐτοῖς, ἀμὴν λέγω ὑμῖν, ἐφ᾽ ὅσον ἐποιήσατε ἑνὶ τούτων τῶν ἀδελφῶν μου τῶν ἐλαχίστων, ἐμοὶ ἐποιήσατε." 
São Mateus, 25 - Bíblia Católica Online
Leia mais em: http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria-vs-septuaginta/sao-mateus/25/

40.Responderá o Rei: - Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.

“Irmãos” e “pequeninos”. A primeira deveria nos colocar diante de duas opções: ou todos os desfavorecidos são irmãos de Jesus e carregam em si a sua imagem e, portanto, serão usados como critério para a salvação pelas boas obras que forem alvo ou, o que é mais coerente com a mensagem do Novo Testamento, Jesus está se referindo aos seus representantes, neste caso, a Igreja e ela sim será usada como critério para o julgamento do mundo (veja: I Cor 6:2 e  Mateus 12: 47-50). 

A palavra “pequeninos” (no grego: ἐλαχίστων) é usada mais outras 2 vezes por Mateus e no sentido depreciativo (sob a ótica do outro, claro, como é exatamente o caso da parábola do grande julgamento, veja: 2:6 e 5:19a). E ainda uma terceira vez, em Mateus, pelo próprio Jesus, também em sentido depreciativo, mas aplicando a palavra não à cidades ou traços da escrita, como foi nos casos anteriores, mas àqueles que ensinarem errado a lei aos seus irmãos. Estes mestres irresponsáveis serão considerados mínimos (pequeninos: veja, a palavra aqui se refere aos seguidores de Jesus) no reino dos céus (5:19b). Cabe, porém, ressaltar que os dicionários apontam um sinônimo para ἐλαχίστων: “mikros”, palavra que é intercambiada em outros contextos de mesmo significado, mas, e isso é o mais importante, no mesmo sentido que “discípulos de Jesus”, que é o usado na parábola do grande julgamento. Veja: Mateus 10: 42, 11:11, 18:6ss). Mas para que não haja dúvida do uso de ἐλαχίστων aplicado também ao discípulo de Jesus, é isso o que, ao falar de si mesmo, Paulo faz em I Cor 15:9. Finalmente, todo este parágrafo vai ao encontro da passagem de Atos 9: 1-9, na qual Jesus se identifica com a Igreja que Paulo está perseguindo, açoitando, lançando nas prisões e mandando matar. Aliás, este é exatamente o contexto da parábola do grande julgamento.

Leia todos os textos anteriores: 


quinta-feira, 29 de junho de 2017

A fé romana comparada à fé reformada a partir dos sermões de Leão Magno (2ª parte): O problema da caridade romana e do amor protestante


“Existe mais perigo num traidor escondido do que num inimigo manifesto” - nesta declaração de Leão Magno podemos ver, embora não fosse essa a ideia original do autor, que o Cristianismo foi muito competente no combate aos inimigos manifestos, mas se deixou envolver pelos traidores escondidos.

Como disse no post anterior, o encontro do Cristianismo com a cultura helênica, especialmente o estoicismo, pode ter marcado muito mais o Cristianismo no seu nascedouro do que a tão comentada influência da filosofia clássica (Platão e Aristóteles). E a Roma pagã, de maneira especial, estava aberta muito mais ao estoicismo do que à Filosofia Clássica, por causa do apelo religioso embutido no estoicismo. Em Ambrósio (339-97) já vemos essa influência do estoicismo (na verdade, Tertuliano, 155-215, é o primeiro que apresenta traços da doutrina do estoicismo no seu cristianismo), assim como o primeiro na Série Patrística a desenvolver a lógica da intercessão dos santos.

O estoicismo tinha muitos elementos semelhantes com o Cristianismo, a começar pela similaridade da ética de ambos. Assim, terminei o último post trazendo que o estoicismo tem grande responsabilidade na construção da mariologia, da supressão dos desejos sexuais, da instituição do celibato e, até mesmo, no mecanismo de mérito e purificação na instituição da misericórdia como elemento para o alcance da santidade.

A presença dos livros de Tobias, Sabedoria e Eclesiástico como Escritura nos sermões de Leão também corroboram ao lado do estoicismo com a construção de uma salvação meritória. Todavia, a mensagem do Novo Testamento é clara ao dizer que o pecador é justificado pela fé (e não pelas obras ou pela “sabedoria”, que, no livro de Eclesiástico é associada à lei e não a um Messias libertador), portanto, era preciso coadunar essas duas doutrinas excludentes: a salvação pelas obras (pregada nos escritos deuterocanônicos) e a salvação pela fé no sacrifício de Jesus ensinada no Novo Testamento. 

A teologia que surge nos sermões de Leão Magno entrelaça essas duas doutrinas: 1) só há salvação em Jesus; 2) as obras fora de Jesus(as boas obras dos pagãos, por exemplo) só tem valor para o próximo, mas não para a salvação; 3) a salvação conquistada por Jesus é para “abrir a porta do céu” ao ser humano; 4) contudo, como o ser humano continua pecador, as boas obras (principalmente as de misericórdia) garantem a purificação destes pecados cometidos pelo crente. Conclusão: a salvação é pela fé, mas é garantida pelas boas obras. O problema é que isso é totalmente diferente do que é pregado no Novo Testamento, onde as boas obras devem ser fruto da verdadeira fé e não meios para garantir o que a fé não seria capaz de dar: santidade.

Na teologia de Leão Magno o sangue de Jesus tem poder para cobrir o pecado original que nos separa de Deus, contudo não garante a salvação final. Esta só é garantida pelas obras de misericórdia (ainda que Leão diga que a esmola e a ajuda ao pobre sejam a maior de todas as virtudes, ele soma à misericórdia o perdão e a denúncia e delação dos hereges escondidos).

O problema natural que aparecerá em Leão é que há pecados graves e pecados leves. Para estes, bastam as obras de misericórdia e penitência (esmola, jejum, oração, perdão), mas para aqueles é necessário contar com a intercessão de homens santos. Para justificar essa intercessão, Ambrósio (aqui e aqui) lembra de Moisés que, diante de um pecado imperdoável, intercedeu e mudou o coração de Deus em favor do povo. 

Os próximos passos na construção das doutrinas alicerçadas nas obras, no mérito (seja no meu ou no mérito do santo) é para dar conta das falhas que irão surgir: e se eu morrer em pecado grave e não tiver tido tempo para pedir perdão, para ter feito penitência ou pedir intercessão? Para responder a essa pergunta é preciso de uma nova doutrina que, até agora, não foi ventilada por nenhum dos livros lidos até aqui na série da Patrística: a doutrina do purgatório. Ora, se o sangue de Jesus me salvou, mas, por alguma situação da vida, eu morri em pecado, sem garantir a minha salvação mediante as obras, então eu irei para o inferno? A doutrina do purgatório surgirá como uma necessidade lógica: as obras de outro (e o meu sofrimento também) serão contadas para livrar os “salvos por Jesus” do purgatório. Como essas e outras doutrinas começaram a ser redigidas pela pena papal, que trazia para si a autoridade de estar no lugar (vigário) de Cristo, ficará cada vez mais difícil voltar atrás sem que todo o castelo venha abaixo. Em outras palavras, voltar atrás em doutrinas assim é afirmar que o papado erra e, portanto, não se poderia mais afirmar que o poder e autoridade conferidos a Pedro, conforme defendido por Leão, estão vivos e ativos in sede sua, isto é, na Igreja Romana.

Temos uma gama de doutrinas meritórias de um lado e, do outro, a única doutrina que verdadeiramente importa: a suficiência de Cristo! Ou Cristo basta e seu sacrifício garante não apenas a “porta aberta”, mas também a própria passagem para o lado de lá ou teremos que construir uma rede de doutrinas que fazem com que a salvação dependa quase que exclusivamente do cristão e não de Cristo! A doutrina da suficiência de Cristo é a fé em toda a extensão, o que, na verdade, revela a Graça de Deus: aquele que começou a boa obra haverá de termina-la! Jesus é o autor e o consumador da nossa fé! O seu sangue não apenas perdoa, mas purifica o nosso pecado toda vez que confessarmos a ele (I João 1:8).

O problema da caridade romana e do amor protestante

Arrisco dizer que é mais fácil compreender a ira do que o amor de Deus. Aliás, o amor é uma exegese complicada e que nos embaralha com diversas palavras associadas na história: amor, caridade, ágape, caritas, misericórdia e compaixão, por exemplo. Por tudo isso, afirmo que o amor bíblico não é algo tão simples assim de compreendermos e, prova disso, é que uma das diferenças cruciais da tradução católica e da tradução protestante se refere exatamente à permuta amor/caridade, que mais do que mera escolha de tradução revela duas cosmovisões que separam católicos e protestantes há meio milênio.

Leão Magno escreve em latim, mas, pela data, será que ele já tinha em mãos a tradução de seu contemporâneo Jerônimo? O que eu sei é que os pais da Igreja não dominavam o hebraico. Contudo, Leão Magno era um homem erudito. Chamo atenção para isso, porque ele vai insistir muito em duas palavras: misericórdia e caridade, em latim elas são misericordiam e caritas. Como se percebe, do latim para o português foi um pulo: misericórdia e caridade. Todavia, as coisas não são tão simples assim. Na versão protestante, caritas é traduzida por amor, ou melhor, as bíblias protestantes não traduzem do latim, mas do grego e a palavra que aparece no texto grego é ágape (ἀγάπη).

Mas, afinal, o que é ágape, que é traduzido por “amor” nas bíblias protestantes e por “caridade” nas bíblias católicas e qual o interesse disso para este meu texto sobre os sermões de Leão Magno? A questão é que a visão de Leão Magno sobre a misericórdia/caridade como a virtude sobre todas as virtudes nasce da compreensão da palavra caritas. Mas o que caritas tem a ver com misericórdia? Em português, na nossa cultura, é muito fácil associá-las e até tê-las por sinônimo. Mas e no tempo de Leão Magno? A ligação entre as duas palavras se dá por causa do grego. Veja, embora o latim tenha uma palavra para misericórdia (misericordiam), o grego no texto de Mateus 5:7 é ελεηθησονται, que deriva de ἐλεέω, que, na maioria das vezes, é traduzido por “compaixão”. Aliás, misericórdia e compaixão são duas palavras similares até em suas composições: miserê (pobre, abandonado, etc) + córdia (coração), que nos traz a ideia de "misericordioso é aquele que se dói com a situação deplorável do outro) e com+paixão (no sentido de dor, sofrimento), que nos traz a ideia semelhante que "compassivo é aquele que está junto, apoiando, se identificando com o outro no seu momento de sofrimento".  Mas o ponto em que quero chegar ainda não é esse. 

Em Mateus 6:2ss, temos uma palavra em grego, ελεημοσυνην, que deriva exatamente de ἐλεέω, mas que é traduzida neste e em tantos outros textos como “esmola”. Pronto! A ligação entre caritas e misericordiam está feita! Na visão de Leão Magno, a caridade e a misericórdia são expressas fundamentalmente por meio das esmolas dadas aos pobres. E será esta compreensão que herdaremos do catolicismo romano em relação à caridade. O problema que reduzir “caridade” ao apoio material dado ao pobre é reduzir o conceito de “amor”, ou melhor dizendo, é reduzir o conceito do ágape de Deus, que é “dar-se em sacrifício ao outro por obediência a Deus e não por um sentimento humano” e nem tão pouco por uma ação de “desencargo de consciência”, mecânica, mercantilista (I Cor 13:3) para garantir a própria salvação.

Sobre o que acabei de dizer acima, gostaria de dizer que discordo de D.A. Carson em muitas coisas e o entendimento dele sobre a palavra ágape é uma delas. Assim, embora a palavra ágape seja utilizada na Bíblia com diversos sentidos, como Carson nos chama a atenção, é para os textos específicos que eu me volto para tratar do ágape no sentido dado no parágrafo anterior (I Cor 13, I Jo 4:8, Rm 5:8 e Jo 15:13, por exemplo).

Assim, ao traduzir ágape por caritas e fazer a redução dessa ao entendimento de mera ajuda ao outro para obter a salvação (Mt 5:7), fazendo da caridade (entenda-se principalmente esmola) a maior das virtudes, pois a esmola, para Leão, era capaz de purificar os pecados, esse entendimento acaba gerando a outra base para uma fé meritória, uma fé pragmática, que completará a construção da fé romana. 

Por outro lado, a tradução “amor” também carrega o peso viciado de uma cultura sentimentalista. Pois Deus não nos manda “sentir” amor pelos inimigos, mas agir em favor deles, independente do que eu sinta no meu coração ou não. Em outras palavras, o “amor” protestante cria a falácia de que o amor de Deus é semelhante ao sentimento humano, quando, na verdade, não é. Quando tratamos “ágape” por um sentimento, uma emoção, interpretamos erroneamente Coríntios 13, como se a tese de Paulo fosse que mesmo que eu faça tudo isso, se não tiver um sentimento, uma emoção, no meu coração de nada adiantará! Ora, um dos erros desse entendimento é que, enquanto eu não “sentir”, então eu não faço, porque, se não houver esse sentimento no meu coração, eu seria um hipócrita se realizasse as coisas para Deus e para os homens. Erro crasso no meio protestante da Igreja Brasileira posso dizer.

Recapitulando: o amor bíblico não é moeda de troca pela garantia da salvação (visão romana) e também não pode ser um mero sentimento (visão predominante no meio evangélico). Enfim, para Deus, o amor é uma decisão racional baseada não no meu coração e nem num desejo de garantir a salvação, mas, ao contrário, o amor deve ser baseado no fato de que Deus nos amou primeiro, isto é, Ele agiu em nosso favor. Assim, a caridade, a misericórdia, o amor que Deus quer que eu tenha pelo próximo, seja ele ímpio ou não (embora eu deva priorizar o bem que posso fazer aos irmãos da fé), é uma resposta à Graça de uma salvação recebida imerecidamente.

Há ainda um ponto que gostaria de trazer à tona num último post sobre essa pequena série de reflexões a partir dos sermões de Leão Magno.

Leia também os dois posts anteriores a este:

terça-feira, 27 de junho de 2017

A fé romana comparada à fé reformada a partir dos sermões de Leão Magno (1ª parte)

Igreja Presbiteriana Nacional, Brasília:
a Igreja em que fui ensinado sobre o Evangelho da Graça
Enquanto lia os sermões de Leão, na minha mente sempre vinham duas coisas: 1) a minha própria experiência como ex-católico romano e uma aula de Sproul sobre a teologia reformada, que deixarei no final deste post, mas o ponto mais importante aqui é a aula “somente pela fé” (vídeos 4 e 5).

Nos sermões de Leão fica claro que a salvação é pela fé na cruz de Cristo, não há outra via! Entretanto, o sacrifício de Jesus é como o abrir a porta do céu. Assim, o que é impossível ao homem foi possível a Jesus: ele abriu a porta do céu a toda a humanidade. Nisto concordam católicos e reformados. A diferença está na extensão dessa doutrina, na verdade, a diferença está na extensão do poder do sangue de Jesus.

A morte de Cristo, o seu sangue derramado, o sacrifício do cordeiro é apenas para possibilitar o impossível ou estende-se também para garantir esse impossível? Garantir contra toda “tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada?” (Romanos 8: 35b). O sangue de Cristo é apenas pontual, agindo em nosso favor contra a condenação do pecado original, mas ineficaz contra os meus pecados posteriores e diários? Como pode um poder tão imenso, capaz até mesmo de destruir as amarras da condenação eterna, fraquejar diante dos meus pecados cometidos diariamente?

A fé católica manifestada nos sermões de Leão declara que o sangue de Jesus tem poder para me unir a Deus novamente, mas essa mesma fé (só ela) não consegue manter essa união diante do fato de que eu continuo pecador! E é aqui que entra o abismo que separa a fé católica da fé romana: para esta, eu preciso fazer obras de misericórdia (e elas são mais importantes do que o exercício de quaisquer outras virtudes para Leão) para garantir o que Jesus conquistou para mim na cruz. Daí, em seus sermões, expressões como: “...aquele que alimento o Cristo no pobre, constrói seu tesouro no céu”, “...e pelo serviço de tuas boas obras... tu sejas libertado de teus múltiplos pecados”, “as esmolas cobrem uma multidão de pecados”, “qualquer culpa contraída durante a permanência terrestre é apagada pelas esmolas”, “...o alimento dado ao pobre é o preço do reino dos céus e aquele que distribuir seus bens temporais torna-se herdeiro dos eternos”, “o que doa aos pobres alcança libertação da condenação”, etc. Dizer, por exemplo, que “as esmolas purificam e apagam nossos pecados” é muito diferente do que justificar que a verdadeira fé produz boas obras, que é um dos pontos de controvérsia entre católicos e reformados. Que a fé sem obras é morta não há dúvida, mas daí dizer que suprir a necessidade dos pobres realiza o perdão dos pecados e a pureza do coração já é um ponto distante demais do texto de Tiago.

Olhando para o momento histórico de Leão (ver o post sobre isso aqui), eu me pergunto como o Cristianismo chegou a esse ponto (estamos na metade do século V). E eu vou dar algumas razões pessoais a partir de agora.

“Existe mais perigo num traidor escondido do que num inimigo manifesto”, declara Leão Magno. Aplicando isso ao Cristianismo, vemos que ele foi muitíssimo competente quanto aos inimigos manifestos do gnosticismo, porém, sucumbiu diante de um traidor escondido: o sincretismo com o estoicismo.

Sincretismo é a inserção de elementos estranhos ao Evangelho puro e simples, é a adequação, acomodação e, até mesmo, fusão com elementos contrários ao espírito evangélico. Dito isso, não podemos esquecer que o Cristianismo recebeu em seu nascedouro pelo menos 3 grandes influências: o judaísmo em toda sua diversidade, a filosofia clássica (principalmente Platão e Aristóteles) e a filosofia helênica, da qual o estoicismo advém. Além do estoicismo, a filosofia helênica produziu também as escolas do epicurismo e do cinismo. Contudo, quero concentrar-me na influência do estoicismo, principalmente na sua fase concomitante ao cristianismo já nascido (Atos 17: 18).

O Estoicismo com o qual o Cristianismo se encontrou foi, de maneira majoritária, o estoicismo de Sêneca (4-65 d.C.), que demarcou a oposição entre o corpo e a alma e, por causa disso, acredito eu, é grande responsável pela ênfase posterior do Cristianismo na questão da virgindade e do celibato como caminhos mais elevados para o alcance da santidade. O estoicismo já aparece desde Tertuliano (155 – 215 d.C.), mas, seguindo a série da Patrística, o próprio comentarista afirma ver sua influência em Ambrósio (tratei aqui). Assim, essa perspectiva de repressão dos desejos sexuais é resultado não do Cristianismo, mas da influência do Estoicismo. Estoicos como Marco Aurélio são admirados por muitos cristãos até hoje exatamente por que sua ética reflete o espírito da ética cristã, todavia, numa ênfase errônea desencadeou uma postura diante da sexualidade que influenciou muitos Pais Apostólicos. Desse sincretismo vemos a ênfase na virgindade perpétua de Maria, defendida fortemente por Ambrósio, a ideia da relação sexual como mácula, presente nos Sermões de Leão Magno e, consequentemente, a construção de uma mariologia que proteja Maria disso tudo.

Entretanto, eu não vejo o estoicismo apenas influenciando a visão cristã no aspecto da sexualidade, mas também na ênfase desequilibrada da misericórdia, pois, para os estoicos, a misericórdia purificava a alma. Esta é uma doutrina estoica e não evangélica! Todavia, somada à influência da cultura helênica, um outro fator permitiu que o helenismo entrasse sorrateiramente – este inimigo oculto –  nas veredas do cristianismo: os livros deuterocanônicos, principalmente, o de Tobias, Sabedoria e Eclesiástico, todos usados por Leão Magno e que são fonte também de doutrinas como a esmola para a salvação da alma.

E aqui há um outro ponto: ninguém percebeu que eram doutrinas contraditórias? Se o sangue de Jesus justifica o pecador, como afirma Leão Magno, como que a esmola pode salvar o pecador já justificado? Exatamente porque a salvação realizada por Jesus se limita a “abrir a porta”, mas para garantir a passagem é preciso as boas obras, que, neste ponto, não são fruto da fé verdadeira, mas garantia de manter aquilo que a cruz conquistou. É uma Graça limitada, portanto. Mas por que isso se deu na história do Cristianismo? Minha resposta é múltipla: 1) o sincretismo com a cultura helênica e sua filosofia; 2) a presença dos deuterocanônicos como Escritura; e 3) o foco da Igreja naquele momento histórico não permitiu que as pessoas olhassem para este ponto: as discussões ainda eram sobre a Trindade, a cristologia e a pessoa do Espírito Santo; também se discutia sobre o primado da Sé romana sobre as demais igrejas; a tensão nas relações da Igreja do Ocidente com a do Oriente; combatia-se as heresias que haviam ressurgido; e, ainda, enfrentava-se o declínio do Império Romano diante das invasões bárbaras. Por tudo isso, além do pecado de orgulho e vaidade dos personagens envolvidos, os inimigos ocultos foram sendo assimilados pelo cristianismo, preparando, na verdade, o combustível para a Reforma Protestante. Contudo, não podemos esquecer que entre Leão Magno e a Reforma Protestante, bem no meio do caminho, um outro cisma ocorreu (ou melhor, se oficializou) em 1051: a separação entre a Igreja do Ocidente e a Igreja do Oriente. 

Porém, permanecendo no tempo de Leão Magno, eu ainda quero tratar de outras razões num próximo post, além do sincretismo com a cultura e filosofia helênicas, em especial o estoicismo, que explicam o nascimento da fé romana que será, finalmente, refutada na Reforma Protestante. 

O que é Teologia Reformada?

terça-feira, 6 de junho de 2017

Por que eu me tornei um cristão? (Reflexões sobre o filme “Eu sou Michael”)

O filme “Eu sou Michael”, com James Franco e Zachary Quinto, conta a história de Michael Glatze, ex-ativista gay que se torna pastor e funda sua própria igreja. A narrativa é baseada não em uma autobiografia, mas num artigo, “Meu ex-amigo gay”, escrito por um amigo de Michael Glatze. E isso também explica o final frustrante do filme, que aponta para o fato de que nada daquela pretensa experiência espiritual foi real. Além disso, a direção é de Justin Kelly, homossexual assumido, que não foge de apresentar claramente a tese do filme. Todas as críticas que li sobre o filme insistem em dizer que Justin Kelly tenta “não tomar partido”, porém, nada mais distante da verdade do que não compreender a sua mensagem óbvia, que é o que vou trazer neste artigo. 

Antes de tudo, gostaria de compartilhar que o filme me instigou a refletir sobre a minha própria conversão: afinal, o que me levou a abandonar minha vida pregressa e seguir a Jesus?

Para o espectador, fica claro que as primeiras indagações de Michael se dão não a partir do seu encontro com a verdade, mas por causa do medo, o medo de não saber o que vai acontecer depois da morte. Tanto que, em determinado momento, o personagem principal expressa que toda aquela mudança radical está ocorrendo porque o seu desejo é morar com seus pais no Céu. De família cristã, ele não estava presente no momento da morte da mãe, mas jogou suas cinzas aos pés de uma árvore. Ao visitar novamente o local, Michael fica assombrado que as cinzas ainda estejam lá: “ela ainda está aqui”, diz ele para o namorado que o acompanhava. O pai de Michael morreu subitamente ao seu lado, enquanto caminhava com ele na praia. Esta morte, especialmente, era uma sombra que o atormentava, porque ele imaginava ter a mesma doença cardíaca que matou seu pai. Após exames médicos, Michael descobre que não tem a doença. O que ele havia tido era um ataque de pânico, causado pelo medo da morte, ou melhor, do que aconteceria com ele após a morte. Aliás, o filme começa com uma cena de morte: o assassinato de um casal de gays. 

Toda essa questão da morte é ressaltada por um amigo que diz que a “terra era uma mancha no espaço e que a existência humana havia acontecido em algum ponto de uma linha do tempo”. Ao dizer isso, esse mesmo amigo indaga: “É preciso que haja algo mais, não?”. O desenho que Michael sempre fazia no papel, e que ele explicava como sendo o infinito, era o desenho de uma espiral, que de infinito não tinha nada, como bem constata um amigo em determinada cena: “olha, aqui é o início e aqui é o fim”, diz, apontando o dedo para as duas extremidades da espiral, desmoronando rapidamente a construção ilusória de “infinito” de Michael.  

Além da espiral mostrar para o espectador que a ideia de infinito de Michael não é real, para que mais o filme usa esse símbolo? A espiral do filme faz referência direta à “espiral do silêncio”, teoria da Comunicação que descreve aquela situação em que indivíduos silenciam suas opiniões contrárias quando percebem que são minoria. Neste sentido, um sentido positivo, Michael é um “quebrador de espirais do silêncio”, tanto quando “saiu do armário” como quando rompeu a pressão da comunidade gay ao anunciar que não era mais gay. 

Contudo, o filme atropela a teoria da espiral do silêncio, revelando que as motivações que levam um indivíduo a destruir a espiral podem não ser nobres, genuínas ou verdadeiras. Então, no filme, como funciona o símbolo da espiral? A espiral é um buraco. O buraco existencial no qual Michael está caindo e que nunca chegará ao fim: o infinito é um abismo, um buraco negro, e não um progresso espiritual. O filme, portanto, não é uma crítica ao mundo promíscuo e permissivo gay e nem tão pouco uma crítica à religião, mas é uma crítica às pessoas que se escondem por trás de mudanças radicais. Todos sabemos que “sair do armário” é uma mudança radical, assim como “largar tudo por Jesus” também é. Há profundas perdas nessas duas atitudes. E a tese do filme é mostrar que tanto um caminho quanto o outro são quedas num buraco negro, pois o problema real do qual estamos fugindo não encontrará resposta em mudanças drásticas de 180 graus. Por isso, no final do filme, quando tudo parecia resolvido na sua busca por si mesmo, Michael tem uma nova crise de pânico, mostrando para o espectador que seu problema ainda estava lá e que talvez seja um problema que não tem nome, nem sabemos bem qual sua origem e talvez nunca encontremos respostas. Caberia, assim, que cada um se aceitasse a ser o que é ao invés de se lançar numa espiral que, no fim, não vai te levar a lugar algum. A vida é isso, somos isso e ponto. O resto é o nada.

Por que abandonei toda minha vida pregressa e, assim como Michael, segui a Jesus? Por medo? Medo da morte? Medo de não ir para o céu ou de ir para o inferno? Ou, quem sabe, medo de no fim não haver nada? Aqui o filme apresenta aquela velha crítica europeia e iluminista sobre o espantalho do cristianismo medieval, que ainda persiste na mentalidade do homem moderno. O cristianismo apresentado no filme é aquele que se aproveita do medo e, colocando o ser humano em crise, apresenta-se como solução daquilo mesmo que o próprio cristianismo teria criado na mente das pessoas. O filme dialoga é com essa caricatura medieval de cristianismo. 

Em antropologia, aprendemos que o medo, a vergonha e a culpa não são criações da religião cristã, mas são elementos presentes na cosmovisão de culturas que, até mesmo, nunca tiveram contato com a Bíblia ou com a tradição judaico-cristã. Algumas culturas tem o medo como elemento mais preponderante de sua cosmovisão (é o caso das culturas indígenas), em outras é a vergonha (a cultura japonesa) e outras ainda tem como elemento mais preponderante de sua cosmovisão a culpa (a cultura americana, por exemplo). Na primeira, toda a economia diária é baseada no medo dos espíritos. Na segunda, a vergonha de ser exposto, de se ver desonrado. Na terceira, podemos vê-la naquela criança que não pode desperdiçar comida no prato, porque “milhões de crianças africanas estão morrendo de fome”. 

Se o Evangelho se aproveitasse do medo que ele mesmo teria semeado (medo do inferno ou de um Deus irado, por exemplo), pouquíssimas culturas no mundo teriam respondido afirmativamente ao apelo da pregação. As religiões não têm sua origem no medo apenas, porque muitas culturas estão envolvidas com muitos outros aspectos da vida humana que excedem o mero “temor da morte”. As religiões respondem às questões de vergonha e culpa também. Por isso, reduzir o cristianismo a um movimento de mentalidade revolucionária existencial, que cria o problema do medo e se apresenta, posteriormente, como solução é reduzir, antes de tudo, o próprio ser humano e suas idiossincrasias.

Por que eu abandonei a minha vida pregressa e segui a Jesus? Será que o meu cristianismo é apenas mais um degrau abaixo nessa espiral infinita de uma existência que pode nunca ter respostas às suas indagações? O filme “Eu sou Michael” é uma ilustração interessante e que me ajuda a responder a essas perguntas. Acredito que o ser humano, assim como Michael (o personagem do filme e não a pessoa real), pode ter seus medos, suas vergonhas e culpas e identifica-las. Mas, como o próprio filme quer mostrar, as mudanças radicais, as revoluções existenciais, serão apenas mais um degrau na espiral rumo ao nada, caso toda essa busca seja pautada na experiência subjetiva como referência! A homossexualidade, o cristianismo gay, o mormonismo, o budismo e o cristianismo independente de Michael fazem parte de uma mesma jornada espiritual em busca de si mesmo, mas, como vemos no filme, não vai dar em nada, porque é impossível ao homem natural entender das verdades do Espírito Santo (I Cor 2:14). 

O problema é que o medo, a vergonha e a culpa são elementos que, usados como veículos para uma busca interior, uma mudança de vida ou de rumo, realmente não garantem nada a ninguém. O filme acerta em cheio ao falar isso, pois tanto uma militância gay como um ativismo cristão podem esconder pessoas que estão apenas despencando numa espiral que mais parece um ralo tragando para dentro os nossos piores dejetos. 

Você não pode esquecer que o filme é baseado num artigo de uma testemunha descrente do que ocorreu com Michael (agora, refiro-me ao verdadeiro e não à personagem). É o mundo julgando a conversão do verdadeiro Michael, que hoje é pastor, casado e com filhos. O mundo vê como loucura o que o verdadeiro Michael fez e, então, criou um personagem e o colocou preso na espiral que o próprio mundo hoje se encontra encarcerado. É inaceitável ao mundo que Michael tenha achado uma porta de saída para todo esse niilismo. 

Não foi o medo, nem a vergonha e nem a culpa o que me trouxeram para Jesus. Não estava em crise de pânico como Michael, ou com vergonha das minhas ações, ou sentia-me em dívida com alguém, embora eu creia que muitos usem desses elementos para chegarem bem perto de Deus, todavia, "chegar bem perto" não é chegar lá! O verdadeiro encontro com Jesus não se sustenta nesses elementos, pois são apenas elementos humanos, carnais e não revelam a Deus. 

Olhando para trás, mas a partir da proposta do filme também, pergunto-me:  o que me levou até Jesus? E a resposta mais sincera que posso dar é “amor”, mas não o meu amor e sim o amor de Deus. Tudo aconteceu quando eu descobri que Deus sempre me amara, mesmo antes de me apresentarem ao Senhor Jesus! Esta foi a descoberta libertadora que o Espírito Santo trouxe para mim: Deus sempre me amou! Desde o ventre da minha mãe, que não optou por me abortar mesmo diante das circunstâncias de sua gravidez; Deus me amou quando me tirou aos dois anos de idade de uma vida que chegaria à morte certa; Deus me amou presenteando-me com uma nova vida que eu mesmo nunca havia pedido; Deus me amou dando-me uma família, o amor de parentes que me amaram apesar de quem eu era; Deus me amou livrando-me da morte tantas e tantas vezes por causa de um estilo de vida destrutivo em que eu mesmo me colocara; enfim, Deus me amou quando eu não O amava! Foi olhando para minha vida sem Jesus que eu me surpreendi com a presença dEle o tempo todo!

A verdade, então, é que eu nunca precisei ir ao encontro de Jesus, porque Ele sempre esteve lá, quando eu sequer sabia da sua existência. Foi assim, num dia qualquer, sem ataque de pânico, sem constrangimentos, sem ser coagido a confessar meus crimes, foi num dia comum, mas foi um dia lindo, o dia mais lindo de toda a minha vida, o dia em que o Espírito Santo me tornou consciente do amor de Deus por mim. O que aconteceu? É que faz parte da natureza do amor te deixar sem graça, encabulado, pois é muito amor por alguém que nem sabia o que era amor de verdade. O Espírito Santo, então, mostrou-me que todo esse amor de Deus faz parte da Sua justiça e que não era um amor de graça, mas Jesus teve que morrer para que eu recebesse todo esse amor; o Espírito Santo também me convenceu de que faz parte do amor o julgamento e que o pecado cobrou um alto preço na Cruz. Todavia, ao aprender essas verdades, eu já estava totalmente rendido pelo amor. Foi o amor de Deus que me mostrou que toda minha vida pregressa é esterco e que o melhor da vida será o dia da volta do meu Senhor, pois eu quero sim morar com Jesus no Céu! Foi o amor, o amor de Deus por mim, que realizou e ainda vem realizando toda essa maravilhosa mudança... 
Há muito que o Senhor me apareceu, dizendo: 
Porquanto com amor eterno te amei, por isso com benignidade te atraí.
Jeremias 31:3

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