domingo, 30 de abril de 2017

Deus não esquece (eu também não)!


Cá, neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!
(Cá nesta Babilónia, Camões)


Todo ano, sou procurado por um ou outro missionário que apresenta um questionário para que eu possa dizer sobre minha formação e minha história de caminhada cristã.

São quase sempre as mesmas perguntas, pois elas fazem parte de uma disciplina de um mesmo curso. Porém, ainda que sejam missionários de outras agências, esses questionários versam sobre conteúdo similar: o preparo que tivemos que antecedeu a nossa chegada no campo.

Assim, pelo menos uma vez por ano, vejo-me revisando minha história. E sempre me faço a mesma pergunta mental: "Fábio, por que você não pega o questionário respondido no ano anterior e envia?". Ao que me pego respondendo a mim: "Rapaz, faça isso não. Oportunidade boa de perceber que você muda sempre, muda até a maneira como você vê o seu próprio passado"!

Um dia, seja aqui ou no Céu, eu gostaria de rever essas minhas respostas dadas às mesmas perguntas nestes anos todos! Se eu colocasse lado a lado esses questionários, veria que houve problemas enfrentados nesta caminhada que, em determinado momento, tiveram um peso enorme sobre mim. Todavia, em outros anos, esses mesmos problemas sequer foram citados nessas entrevistas. Ainda assim, perceberia que, noutros anos, esses mesmos problemas, outrora sequer mencionados, reapareceram em algum questionário e, às vezes, reaparecem como se eu estivesse (re)vivendo aquilo tudo ali no presente na mesma época em que me encontro respondendo àquelas perguntas. Por quê?

Acredito que eu poderia responder que somos assim mesmo: perdoamos, mas alguns erros que cometemos ou que cometeram contra nós, por mera questão de associação, retornam e voltam a ganhar cores em nossas vidas. Em alguns casos não tem nada a ver com amargura, falta de perdão ou coisa semelhante. É como aquele método, o brainstorm, que usamos para despertar ideias. É uma caixa de Pandora que, uma vez aberta (e o que a abriria?), traz males que sequer lembrávamos. Ou, poderia dizer, é como se fossemos aqueles sítios arqueológicos nos quais as escavações vão revelando as camadas sobrepostas de eras antigas... É como somos nós e é o que somos, nós e nossas circunstâncias, como dizia o filósofo.

Entendo, por outro lado, que a única maneira de crescermos é não esquecermos! E que maturidade, principalmente espiritual, deve-se ao fato de aprendermos a trabalhar com nossas memórias, lembranças, sentimentos e imagens do nosso passado, tanto as boas como as ruins. O perdão não tem a ver com perda de memória, não é uma lobotomia espiritual. O perdão tem a ver com não deixar que aquilo te fira de novo e nem domine e sufoque sua caminhada e seu amor pelo outro. Duvido muito que, no Céu, diante do julgamento de Deus, Ele venha a dizer: Opa! Desculpa, mas sua ficha criminal está em branco, não lembro dos pecados que você cometeu. Assim, por falta de provas, declaro você inocente"!

Muito pelo contrário. À luz da Bíblia, vejo que o Grande Juiz dirá: "Olha, é grave! É gravíssimo! Todas as provas são indubitáveis e conclusivas. Cada um dos seus pecados está aqui, escritos um a um. O seu pecado, cada um deles, está diante dos meus olhos e causam separação entre mim e você"! Exatamente por não esquecer é que Deus, para resolver minha situação, enviou o seu próprio Filho para pagar o impagável e favorecer-me com o Seu perdão. Em outras palavras, tanto a Justiça como a Misericórdia divinas atuam sobre a base de um Deus que não esquece jamais!

E se você compreendeu o que eu disse no parágrafo anterior, agora você pode entender acertadamente o que significam versos como o que se encontra em Jeremias 31:34, que dizem que Deus “esquece” os nossos pecados. “Esquecer”, no Hebraico, é um conjunto de palavras um pouco mais complexo do que você possa imaginar e de nuances delicadas de acordo com o contexto, mas a ideia final é exatamente esta: Deus não usará contra você os seus pecados, Deus não castigará a mim e a você segundo a lista de nossos pecados. Por que Ele teria esquecido? Evidentemente que não, pois, fosse assim, seria uma espécie de Alzheimer divino e não a Cruz a base de nossa salvação. Dito de outra forma, “esquecer” significa que Deus agirá em favor daqueles por quem Jesus morreu.

Deus não esquece. Não fosse assim, bastaria Ele ter dito a Adão e Eva: "Tudo bem, gente! Isso acontece. Afinal, errar é humano. Esqueçam isso, levantem a cabeça, sigam em frente e digam diante do espelho: i want, i can"! Contudo, o meu pecado, cada pecado pensado, sugerido, desejado, escondido, omitido ou declarado, dito ou não dito, consciente ou não, todos eles estarão bem ali para que eu aprenda a gravidade e a consequência que eles tiveram: o Filho de Deus morreu para que eu fosse perdoado. E o Pai jamais esquecerá da justiça que Ele colocou sobre os ombros de Jesus para que eu recebesse o Seu perdão e reconciliação. Semelhantemente, Jesus também jamais esquecerá do amor que Ele teve quando decidiu, por Sua livre-vontade, morrer pela Sua noiva. E, exatamente aqui, acredito que eu e você podemos dar um brado de aleluias por estas verdades maravilhosas!!!

O meu Deus não esquece. E isto é Graça: apesar de cada pecado meu pregando seu Filho naquela cruz, foi exatamente naquela Cruz do Calvário, que Ele me perdoou. Ele me perdoa, mas não "cura" minhas memórias. Ele me perdoa, mas é preciso que eu aprenda, didaticamente, com os meus erros e com os erros dos outros. Esta responsabilidade é minha! Só assim posso ser, de fato, um bom conselheiro, só assim posso ser um canal de bênção na vida de outros, só assim posso aprender o que é santificação. Veja, como exemplo, cada pecado, cada passo dado pelo Rei Davi está ali registrado. Deus não só não esqueceu, como, também, não quer que eu e você esqueçamos como somos essa podridão que somos: PECADORES! A única maneira de você entender o que é a Graça Imerecida de Deus é se você não esquecer o que você é. Eis a Graça: onde abundou o pecado, superabundou o perdão e o amor salvíficos de Deus.

Todo este longo texto começou comigo falando de entrevistas. Eu perdoei todas as pessoas que me magoaram e feriram nesta caminhada. E o mais surpreendente é que eu mesmo perdoei a mim! Sim! Perdoei as feridas e mágoas que causei a tantas pessoas também! E eu só posso perdoar a mim e aos outros, porque não esqueço que todos esses pecados tiveram um preço terrível para que eu me libertasse do domínio e da condenação deles. Qual o preço? O sangue derramado naquela Cruz! Assim, se em sua Soberania Deus aprouve derramar o seu perdão, cabe a mim, na minha responsabilidade, não esquecer de cada um dos cravos, espinhos, bofetadas e cusparadas que eu mesmo dei em meu Jesus naquela Sexta-Feira. Então, por favor, não esqueça que o pecado foi seu, mas que o amor foi dEle – isto é o Evangelho!

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A Semana Santa e os 500 anos de Reforma Protestante


Não haverá ressurreição enquanto não houver antes uma séria compreensão da vida, paixão e sacrifício do Senhor Jesus

Eu não tenho problema com religião. Todavia, sei que há quem tenha. Por isso, vejo as pessoas caindo numa miríade de definições do que, afinal, significa a palavra “religião” para ver se encaixa ou se descarta de vez.

Nestes 22 anos de meu Protestantismo, vi duas posições extremas no meio evangélico. Desde a descabida sentença “Jesus odeia a religião” até a vida religiosamente chata, vazia e estéril de gente que se enche de rituais, ou se esvazia completamente deles, para reviver ou manter (ou justificar, sei lá) a experiência com o sagrado. E no meio destes dois extremos se abre um vasto leque que vai desde os desigrejados até os neoanimistas com seus atos simbólicos. Entra de tudo.

O que me motiva a escrever este texto é, na verdade, estes dias de Semana Santa, que de “santa” não tem nada há muito tempo. É aquele ponto em que a nossa religiosidade se perde em algum lugar entre o politicamente correto, o laicismo estatal e aquela velha ladainha argumentativa de que “toda semana é santa”. Não querer “impor” um feriado religioso a outros grupos minoritários não-cristãos, não querer que o Estado coopte com nenhuma religião e o simples aborto de todo e qualquer tipo de ritual estão nos porquês de nossa comunidade secularizada.

Digo tudo isso pois, para muitos e para muitas igrejas ditas evangélicas, o “feriadão” da Semana Santa tornou-se apenas um grande final de semana prolongado, que começa na sexta e vai até o domingo. Há muitos anos, desde a minha conversão, que a rejeição de tantos irmãos a toda e qualquer reflexão religiosa nesses dias me assusta. Do meu lado, como dei aula todos estes dias, pude, desde segunda-feira, caminhar com meus alunos, a cada dia, lendo os textos da última semana de Jesus e meditar em cada um dos eventos. Chamei a atenção para isso aqui em casa também: “Sabe o que aconteceu nesta terça (quarta, quinta...) há quase dois mil anos?”, perguntei todos os dias desta semana às minhas filhas.

Alegra-me que haja igrejas evangélicas que, ao menos na sexta-feira, façam o culto com o tema das "sete últimas palavras de Jesus na cruz”. Todo mundo junto! A comunidade da fé! A família, a Igreja, a Noiva de Jesus meditando como corpo e rememorando o ato de amor inenarrável do seu Amado por ela. 

Vou confessar algo sério a vocês. Assusto-me com o esvaziamento radical de religiosidade nos nossos cultos. E não, não estou falando de velas e de latim, por favor. Estou me referindo, por exemplo, ao desconhecido das nossas novas gerações: o ano litúrgico. Alguém ainda sabe o que é o “ano litúrgico”? Vou dizer então: é o tempo de Deus invadindo o nosso tempo, é o extraordinário bulindo (fazendo bullying mesmo) com o nosso maçante ordinário. Porém, tudo isso acabou em muitas Igrejas. 

O ano litúrgico era uma didática de ensino-aprendizagem circular em meio a um povo que diz aprender só de forma linear. Mentira, pois! Somos todos circulares, por isso gostamos dos memoriais, dos anos litúrgicos, das datas de aniversário e de comemorações que sempre se repetem. A Igreja, assim como o povo de Israel no Antigo Testamento, compreendeu o aspecto memorial dos rituais e criou o “ano litúrgico”, separado e organizado de modo a relembrar a narrativa de Deus na nossa história. Algumas Igrejas Protestantes e Católicas mais tradicionais ainda observam o ano litúrgico, mas a maioria de nós, em nome dos tempos (pós)modernos, abdicou de trazer o sagrado para incomodar a nossa vida ordinária.

Precisamos de rituais. Deus sabe disso e, por isso mesmo, ele instituiu a Mesa do Senhor e o Batismo. O ritual serve para isso: um memorial de nossas crenças. O ritual cristão não deve ser mágico e nem se atribuir um poder para manipular o divino a nosso favor, pois isso já tem um outro nome: feitiçaria. E a Mesa do Senhor e o Batismo, portanto, não são rituais mágicos. Embora, na interpretação Reformada, eles sejam sim algo mais do que meros memoriais. 

Os casamentos cristãos também são rituais. Entretanto, os casamentos já foram tão desnudados de seu significado simbólico que as noivas - que já não cultivam a castidade e o branco de seus véus - nem mais são recepcionadas com a pompa e honra devidas (até para o fotógrafo descendo a passarela da nave as pessoas se levantam)! O casamento é mais um símbolo esgotado de nossa geração avessa à Tradição.

Escrevo este texto à luz do comentário de Franklin Ferreira sobre a conversão de Hank Hanegraaff à fé ortodoxa. E penso também sobre todos esses que transitam de lá para cá e vice-versa. Conversões entre as grandes tradições cristãs sempre houve. Eu mesmo sou um ex-romano, que fiz seminário para ser padre, mas, convencido pelo poder do ES, passei de lá para cá há 22 anos.

Fugindo da exegese apressadamente superficial de que aqueles que saíram do nosso meio só o fizeram porque não eram dos nossos, gostaria de citar o parágrafo retumbante de Franklin Ferreira: “Talvez a principal razão para tal mudança seja o fato de que para estes a instituição – a igreja – com sua hierarquia, símbolos e ritos, se tornou um fundamento e apoio à fé mais importante que a Palavra de Deus”.

E não é verdade? Pois a Reforma Protestante é fundamentada na centralidade da Palavra – Sola Scriptura. Todavia, como disse no parágrafo anterior, é simplista demais usarmos 1 João 2:19 para mascararmos os nossos próprios erros e a responsabilidade na saída desses de nosso aprisco. Podemos, como sempre, fugir do assunto e dizer que este texto jaz sob reminiscências do romanismo ou, mais ousadamente, sondar a decadência de nossa comunicação com a geração de nosso tempo acerca da fé reformada.   

A centralidade da Palavra sempre foi comunicada de uma forma que o povo compreendesse, seja por meio do Batismo, seja pela Mesa do Senhor, seja pelo Ano Litúrgico ou ainda outros símbolos. Acredito que a frase de Franklin Ferreira tem um posicionamento certo, equilibrado e necessário para despertar em nós uma autoavaliação, pois a centralidade da Palavra não significa a exclusão dos meios necessários, pedagógicos e didáticos, para a melhor comunicação com o povo.

Espero que os 500 anos da Reforma Protestante num país que, na verdade, nunca conheceu a Reforma seja uma ótima oportunidade de reflexão sobre o que temos feito de errado na nossa comunicação, seja tanto nos exageros pantomímicos mágicos como também na sequidão de uma liturgia que não se comunica mais com o coração humano sob a desculpa de que o culto é um serviço para Deus e não para o homem. 

Digo “desculpa”, porque antigamente eram os padres que viravam as costas para o povo e seguiam uma liturgia em latim, hoje em dia, contudo, são pastores e líderes protestantes que se negam a olhar nos olhos do povo em nome de um purismo litúrgico, que, concordo, não pode ser antropocêntrico, mas não precisa ser descontextualizado e alienado.

Que este ano seja o início de uma reflexão dos Reformados sobre a expressão da nossa fé em solo culturalmente brasileiro e o que isso, de fato, significará para as futuras gerações.  
   

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