terça-feira, 6 de junho de 2017

Por que eu me tornei um cristão? (Reflexões sobre o filme “Eu sou Michael”)

O filme “Eu sou Michael”, com James Franco e Zachary Quinto, conta a história de Michael Glatze, ex-ativista gay que se torna pastor e funda sua própria igreja. A narrativa é baseada não em uma autobiografia, mas num artigo, “Meu ex-amigo gay”, escrito por um amigo de Michael Glatze. E isso também explica o final frustrante do filme, que aponta para o fato de que nada daquela pretensa experiência espiritual foi real. Além disso, a direção é de Justin Kelly, homossexual assumido, que não foge de apresentar claramente a tese do filme. Todas as críticas que li sobre o filme insistem em dizer que Justin Kelly tenta “não tomar partido”, porém, nada mais distante da verdade do que não compreender a sua mensagem óbvia, que é o que vou trazer neste artigo. 

Antes de tudo, gostaria de compartilhar que o filme me instigou a refletir sobre a minha própria conversão: afinal, o que me levou a abandonar minha vida pregressa e seguir a Jesus?

Para o espectador, fica claro que as primeiras indagações de Michael se dão não a partir do seu encontro com a verdade, mas por causa do medo, o medo de não saber o que vai acontecer depois da morte. Tanto que, em determinado momento, o personagem principal expressa que toda aquela mudança radical está ocorrendo porque o seu desejo é morar com seus pais no Céu. De família cristã, ele não estava presente no momento da morte da mãe, mas jogou suas cinzas aos pés de uma árvore. Ao visitar novamente o local, Michael fica assombrado que as cinzas ainda estejam lá: “ela ainda está aqui”, diz ele para o namorado que o acompanhava. O pai de Michael morreu subitamente ao seu lado, enquanto caminhava com ele na praia. Esta morte, especialmente, era uma sombra que o atormentava, porque ele imaginava ter a mesma doença cardíaca que matou seu pai. Após exames médicos, Michael descobre que não tem a doença. O que ele havia tido era um ataque de pânico, causado pelo medo da morte, ou melhor, do que aconteceria com ele após a morte. Aliás, o filme começa com uma cena de morte: o assassinato de um casal de gays. 

Toda essa questão da morte é ressaltada por um amigo que diz que a “terra era uma mancha no espaço e que a existência humana havia acontecido em algum ponto de uma linha do tempo”. Ao dizer isso, esse mesmo amigo indaga: “É preciso que haja algo mais, não?”. O desenho que Michael sempre fazia no papel, e que ele explicava como sendo o infinito, era o desenho de uma espiral, que de infinito não tinha nada, como bem constata um amigo em determinada cena: “olha, aqui é o início e aqui é o fim”, diz, apontando o dedo para as duas extremidades da espiral, desmoronando rapidamente a construção ilusória de “infinito” de Michael.  

Além da espiral mostrar para o espectador que a ideia de infinito de Michael não é real, para que mais o filme usa esse símbolo? A espiral do filme faz referência direta à “espiral do silêncio”, teoria da Comunicação que descreve aquela situação em que indivíduos silenciam suas opiniões contrárias quando percebem que são minoria. Neste sentido, um sentido positivo, Michael é um “quebrador de espirais do silêncio”, tanto quando “saiu do armário” como quando rompeu a pressão da comunidade gay ao anunciar que não era mais gay. 

Contudo, o filme atropela a teoria da espiral do silêncio, revelando que as motivações que levam um indivíduo a destruir a espiral podem não ser nobres, genuínas ou verdadeiras. Então, no filme, como funciona o símbolo da espiral? A espiral é um buraco. O buraco existencial no qual Michael está caindo e que nunca chegará ao fim: o infinito é um abismo, um buraco negro, e não um progresso espiritual. O filme, portanto, não é uma crítica ao mundo promíscuo e permissivo gay e nem tão pouco uma crítica à religião, mas é uma crítica às pessoas que se escondem por trás de mudanças radicais. Todos sabemos que “sair do armário” é uma mudança radical, assim como “largar tudo por Jesus” também é. Há profundas perdas nessas duas atitudes. E a tese do filme é mostrar que tanto um caminho quanto o outro são quedas num buraco negro, pois o problema real do qual estamos fugindo não encontrará resposta em mudanças drásticas de 180 graus. Por isso, no final do filme, quando tudo parecia resolvido na sua busca por si mesmo, Michael tem uma nova crise de pânico, mostrando para o espectador que seu problema ainda estava lá e que talvez seja um problema que não tem nome, nem sabemos bem qual sua origem e talvez nunca encontremos respostas. Caberia, assim, que cada um se aceitasse a ser o que é ao invés de se lançar numa espiral que, no fim, não vai te levar a lugar algum. A vida é isso, somos isso e ponto. O resto é o nada.

Por que abandonei toda minha vida pregressa e, assim como Michael, segui a Jesus? Por medo? Medo da morte? Medo de não ir para o céu ou de ir para o inferno? Ou, quem sabe, medo de no fim não haver nada? Aqui o filme apresenta aquela velha crítica europeia e iluminista sobre o espantalho do cristianismo medieval, que ainda persiste na mentalidade do homem moderno. O cristianismo apresentado no filme é aquele que se aproveita do medo e, colocando o ser humano em crise, apresenta-se como solução daquilo mesmo que o próprio cristianismo teria criado na mente das pessoas. O filme dialoga é com essa caricatura medieval de cristianismo. 

Em antropologia, aprendemos que o medo, a vergonha e a culpa não são criações da religião cristã, mas são elementos presentes na cosmovisão de culturas que, até mesmo, nunca tiveram contato com a Bíblia ou com a tradição judaico-cristã. Algumas culturas tem o medo como elemento mais preponderante de sua cosmovisão (é o caso das culturas indígenas), em outras é a vergonha (a cultura japonesa) e outras ainda tem como elemento mais preponderante de sua cosmovisão a culpa (a cultura americana, por exemplo). Na primeira, toda a economia diária é baseada no medo dos espíritos. Na segunda, a vergonha de ser exposto, de se ver desonrado. Na terceira, podemos vê-la naquela criança que não pode desperdiçar comida no prato, porque “milhões de crianças africanas estão morrendo de fome”. 

Se o Evangelho se aproveitasse do medo que ele mesmo teria semeado (medo do inferno ou de um Deus irado, por exemplo), pouquíssimas culturas no mundo teriam respondido afirmativamente ao apelo da pregação. As religiões não têm sua origem no medo apenas, porque muitas culturas estão envolvidas com muitos outros aspectos da vida humana que excedem o mero “temor da morte”. As religiões respondem às questões de vergonha e culpa também. Por isso, reduzir o cristianismo a um movimento de mentalidade revolucionária existencial, que cria o problema do medo e se apresenta, posteriormente, como solução é reduzir, antes de tudo, o próprio ser humano e suas idiossincrasias.

Por que eu abandonei a minha vida pregressa e segui a Jesus? Será que o meu cristianismo é apenas mais um degrau abaixo nessa espiral infinita de uma existência que pode nunca ter respostas às suas indagações? O filme “Eu sou Michael” é uma ilustração interessante e que me ajuda a responder a essas perguntas. Acredito que o ser humano, assim como Michael (o personagem do filme e não a pessoa real), pode ter seus medos, suas vergonhas e culpas e identifica-las. Mas, como o próprio filme quer mostrar, as mudanças radicais, as revoluções existenciais, serão apenas mais um degrau na espiral rumo ao nada, caso toda essa busca seja pautada na experiência subjetiva como referência! A homossexualidade, o cristianismo gay, o mormonismo, o budismo e o cristianismo independente de Michael fazem parte de uma mesma jornada espiritual em busca de si mesmo, mas, como vemos no filme, não vai dar em nada, porque é impossível ao homem natural entender das verdades do Espírito Santo (I Cor 2:14). 

O problema é que o medo, a vergonha e a culpa são elementos que, usados como veículos para uma busca interior, uma mudança de vida ou de rumo, realmente não garantem nada a ninguém. O filme acerta em cheio ao falar isso, pois tanto uma militância gay como um ativismo cristão podem esconder pessoas que estão apenas despencando numa espiral que mais parece um ralo tragando para dentro os nossos piores dejetos. 

Você não pode esquecer que o filme é baseado num artigo de uma testemunha descrente do que ocorreu com Michael (agora, refiro-me ao verdadeiro e não à personagem). É o mundo julgando a conversão do verdadeiro Michael, que hoje é pastor, casado e com filhos. O mundo vê como loucura o que o verdadeiro Michael fez e, então, criou um personagem e o colocou preso na espiral que o próprio mundo hoje se encontra encarcerado. É inaceitável ao mundo que Michael tenha achado uma porta de saída para todo esse niilismo. 

Não foi o medo, nem a vergonha e nem a culpa o que me trouxeram para Jesus. Não estava em crise de pânico como Michael, ou com vergonha das minhas ações, ou sentia-me em dívida com alguém, embora eu creia que muitos usem desses elementos para chegarem bem perto de Deus, todavia, "chegar bem perto" não é chegar lá! O verdadeiro encontro com Jesus não se sustenta nesses elementos, pois são apenas elementos humanos, carnais e não revelam a Deus. 

Olhando para trás, mas a partir da proposta do filme também, pergunto-me:  o que me levou até Jesus? E a resposta mais sincera que posso dar é “amor”, mas não o meu amor e sim o amor de Deus. Tudo aconteceu quando eu descobri que Deus sempre me amara, mesmo antes de me apresentarem ao Senhor Jesus! Esta foi a descoberta libertadora que o Espírito Santo trouxe para mim: Deus sempre me amou! Desde o ventre da minha mãe, que não optou por me abortar mesmo diante das circunstâncias de sua gravidez; Deus me amou quando me tirou aos dois anos de idade de uma vida que chegaria à morte certa; Deus me amou presenteando-me com uma nova vida que eu mesmo nunca havia pedido; Deus me amou dando-me uma família, o amor de parentes que me amaram apesar de quem eu era; Deus me amou livrando-me da morte tantas e tantas vezes por causa de um estilo de vida destrutivo em que eu mesmo me colocara; enfim, Deus me amou quando eu não O amava! Foi olhando para minha vida sem Jesus que eu me surpreendi com a presença dEle o tempo todo!

A verdade, então, é que eu nunca precisei ir ao encontro de Jesus, porque Ele sempre esteve lá, quando eu sequer sabia da sua existência. Foi assim, num dia qualquer, sem ataque de pânico, sem constrangimentos, sem ser coagido a confessar meus crimes, foi num dia comum, mas foi um dia lindo, o dia mais lindo de toda a minha vida, o dia em que o Espírito Santo me tornou consciente do amor de Deus por mim. O que aconteceu? É que faz parte da natureza do amor te deixar sem graça, encabulado, pois é muito amor por alguém que nem sabia o que era amor de verdade. O Espírito Santo, então, mostrou-me que todo esse amor de Deus faz parte da Sua justiça e que não era um amor de graça, mas Jesus teve que morrer para que eu recebesse todo esse amor; o Espírito Santo também me convenceu de que faz parte do amor o julgamento e que o pecado cobrou um alto preço na Cruz. Todavia, ao aprender essas verdades, eu já estava totalmente rendido pelo amor. Foi o amor de Deus que me mostrou que toda minha vida pregressa é esterco e que o melhor da vida será o dia da volta do meu Senhor, pois eu quero sim morar com Jesus no Céu! Foi o amor, o amor de Deus por mim, que realizou e ainda vem realizando toda essa maravilhosa mudança... 
Há muito que o Senhor me apareceu, dizendo: 
Porquanto com amor eterno te amei, por isso com benignidade te atraí.
Jeremias 31:3

domingo, 30 de abril de 2017

Deus não esquece (eu também não)!


Cá, neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!
(Cá nesta Babilónia, Camões)


Todo ano, sou procurado por um ou outro missionário que apresenta um questionário para que eu possa dizer sobre minha formação e minha história de caminhada cristã.

São quase sempre as mesmas perguntas, pois elas fazem parte de uma disciplina de um mesmo curso. Porém, ainda que sejam missionários de outras agências, esses questionários versam sobre conteúdo similar: o preparo que tivemos que antecedeu a nossa chegada no campo.

Assim, pelo menos uma vez por ano, vejo-me revisando minha história. E sempre me faço a mesma pergunta mental: "Fábio, por que você não pega o questionário respondido no ano anterior e envia?". Ao que me pego respondendo a mim: "Rapaz, faça isso não. Oportunidade boa de perceber que você muda sempre, muda até a maneira como você vê o seu próprio passado"!

Um dia, seja aqui ou no Céu, eu gostaria de rever essas minhas respostas dadas às mesmas perguntas nestes anos todos! Se eu colocasse lado a lado esses questionários, veria que houve problemas enfrentados nesta caminhada que, em determinado momento, tiveram um peso enorme sobre mim. Todavia, em outros anos, esses mesmos problemas sequer foram citados nessas entrevistas. Ainda assim, perceberia que, noutros anos, esses mesmos problemas, outrora sequer mencionados, reapareceram em algum questionário e, às vezes, reaparecem como se eu estivesse (re)vivendo aquilo tudo ali no presente na mesma época em que me encontro respondendo àquelas perguntas. Por quê?

Acredito que eu poderia responder que somos assim mesmo: perdoamos, mas alguns erros que cometemos ou que cometeram contra nós, por mera questão de associação, retornam e voltam a ganhar cores em nossas vidas. Em alguns casos não tem nada a ver com amargura, falta de perdão ou coisa semelhante. É como aquele método, o brainstorm, que usamos para despertar ideias. É uma caixa de Pandora que, uma vez aberta (e o que a abriria?), traz males que sequer lembrávamos. Ou, poderia dizer, é como se fossemos aqueles sítios arqueológicos nos quais as escavações vão revelando as camadas sobrepostas de eras antigas... É como somos nós e é o que somos, nós e nossas circunstâncias, como dizia o filósofo.

Entendo, por outro lado, que a única maneira de crescermos é não esquecermos! E que maturidade, principalmente espiritual, deve-se ao fato de aprendermos a trabalhar com nossas memórias, lembranças, sentimentos e imagens do nosso passado, tanto as boas como as ruins. O perdão não tem a ver com perda de memória, não é uma lobotomia espiritual. O perdão tem a ver com não deixar que aquilo te fira de novo e nem domine e sufoque sua caminhada e seu amor pelo outro. Duvido muito que, no Céu, diante do julgamento de Deus, Ele venha a dizer: Opa! Desculpa, mas sua ficha criminal está em branco, não lembro dos pecados que você cometeu. Assim, por falta de provas, declaro você inocente"!

Muito pelo contrário. À luz da Bíblia, vejo que o Grande Juiz dirá: "Olha, é grave! É gravíssimo! Todas as provas são indubitáveis e conclusivas. Cada um dos seus pecados está aqui, escritos um a um. O seu pecado, cada um deles, está diante dos meus olhos e causam separação entre mim e você"! Exatamente por não esquecer é que Deus, para resolver minha situação, enviou o seu próprio Filho para pagar o impagável e favorecer-me com o Seu perdão. Em outras palavras, tanto a Justiça como a Misericórdia divinas atuam sobre a base de um Deus que não esquece jamais!

E se você compreendeu o que eu disse no parágrafo anterior, agora você pode entender acertadamente o que significam versos como o que se encontra em Jeremias 31:34, que dizem que Deus “esquece” os nossos pecados. “Esquecer”, no Hebraico, é um conjunto de palavras um pouco mais complexo do que você possa imaginar e de nuances delicadas de acordo com o contexto, mas a ideia final é exatamente esta: Deus não usará contra você os seus pecados, Deus não castigará a mim e a você segundo a lista de nossos pecados. Por que Ele teria esquecido? Evidentemente que não, pois, fosse assim, seria uma espécie de Alzheimer divino e não a Cruz a base de nossa salvação. Dito de outra forma, “esquecer” significa que Deus agirá em favor daqueles por quem Jesus morreu.

Deus não esquece. Não fosse assim, bastaria Ele ter dito a Adão e Eva: "Tudo bem, gente! Isso acontece. Afinal, errar é humano. Esqueçam isso, levantem a cabeça, sigam em frente e digam diante do espelho: i want, i can"! Contudo, o meu pecado, cada pecado pensado, sugerido, desejado, escondido, omitido ou declarado, dito ou não dito, consciente ou não, todos eles estarão bem ali para que eu aprenda a gravidade e a consequência que eles tiveram: o Filho de Deus morreu para que eu fosse perdoado. E o Pai jamais esquecerá da justiça que Ele colocou sobre os ombros de Jesus para que eu recebesse o Seu perdão e reconciliação. Semelhantemente, Jesus também jamais esquecerá do amor que Ele teve quando decidiu, por Sua livre-vontade, morrer pela Sua noiva. E, exatamente aqui, acredito que eu e você podemos dar um brado de aleluias por estas verdades maravilhosas!!!

O meu Deus não esquece. E isto é Graça: apesar de cada pecado meu pregando seu Filho naquela cruz, foi exatamente naquela Cruz do Calvário, que Ele me perdoou. Ele me perdoa, mas não "cura" minhas memórias. Ele me perdoa, mas é preciso que eu aprenda, didaticamente, com os meus erros e com os erros dos outros. Esta responsabilidade é minha! Só assim posso ser, de fato, um bom conselheiro, só assim posso ser um canal de bênção na vida de outros, só assim posso aprender o que é santificação. Veja, como exemplo, cada pecado, cada passo dado pelo Rei Davi está ali registrado. Deus não só não esqueceu, como, também, não quer que eu e você esqueçamos como somos essa podridão que somos: PECADORES! A única maneira de você entender o que é a Graça Imerecida de Deus é se você não esquecer o que você é. Eis a Graça: onde abundou o pecado, superabundou o perdão e o amor salvíficos de Deus.

Todo este longo texto começou comigo falando de entrevistas. Eu perdoei todas as pessoas que me magoaram e feriram nesta caminhada. E o mais surpreendente é que eu mesmo perdoei a mim! Sim! Perdoei as feridas e mágoas que causei a tantas pessoas também! E eu só posso perdoar a mim e aos outros, porque não esqueço que todos esses pecados tiveram um preço terrível para que eu me libertasse do domínio e da condenação deles. Qual o preço? O sangue derramado naquela Cruz! Assim, se em sua Soberania Deus aprouve derramar o seu perdão, cabe a mim, na minha responsabilidade, não esquecer de cada um dos cravos, espinhos, bofetadas e cusparadas que eu mesmo dei em meu Jesus naquela Sexta-Feira. Então, por favor, não esqueça que o pecado foi seu, mas que o amor foi dEle – isto é o Evangelho!

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A Semana Santa e os 500 anos de Reforma Protestante


Não haverá ressurreição enquanto não houver antes uma séria compreensão da vida, paixão e sacrifício do Senhor Jesus

Eu não tenho problema com religião. Todavia, sei que há quem tenha. Por isso, vejo as pessoas caindo numa miríade de definições do que, afinal, significa a palavra “religião” para ver se encaixa ou se descarta de vez.

Nestes 22 anos de meu Protestantismo, vi duas posições extremas no meio evangélico. Desde a descabida sentença “Jesus odeia a religião” até a vida religiosamente chata, vazia e estéril de gente que se enche de rituais, ou se esvazia completamente deles, para reviver ou manter (ou justificar, sei lá) a experiência com o sagrado. E no meio destes dois extremos se abre um vasto leque que vai desde os desigrejados até os neoanimistas com seus atos simbólicos. Entra de tudo.

O que me motiva a escrever este texto é, na verdade, estes dias de Semana Santa, que de “santa” não tem nada há muito tempo. É aquele ponto em que a nossa religiosidade se perde em algum lugar entre o politicamente correto, o laicismo estatal e aquela velha ladainha argumentativa de que “toda semana é santa”. Não querer “impor” um feriado religioso a outros grupos minoritários não-cristãos, não querer que o Estado coopte com nenhuma religião e o simples aborto de todo e qualquer tipo de ritual estão nos porquês de nossa comunidade secularizada.

Digo tudo isso pois, para muitos e para muitas igrejas ditas evangélicas, o “feriadão” da Semana Santa tornou-se apenas um grande final de semana prolongado, que começa na sexta e vai até o domingo. Há muitos anos, desde a minha conversão, que a rejeição de tantos irmãos a toda e qualquer reflexão religiosa nesses dias me assusta. Do meu lado, como dei aula todos estes dias, pude, desde segunda-feira, caminhar com meus alunos, a cada dia, lendo os textos da última semana de Jesus e meditar em cada um dos eventos. Chamei a atenção para isso aqui em casa também: “Sabe o que aconteceu nesta terça (quarta, quinta...) há quase dois mil anos?”, perguntei todos os dias desta semana às minhas filhas.

Alegra-me que haja igrejas evangélicas que, ao menos na sexta-feira, façam o culto com o tema das "sete últimas palavras de Jesus na cruz”. Todo mundo junto! A comunidade da fé! A família, a Igreja, a Noiva de Jesus meditando como corpo e rememorando o ato de amor inenarrável do seu Amado por ela. 

Vou confessar algo sério a vocês. Assusto-me com o esvaziamento radical de religiosidade nos nossos cultos. E não, não estou falando de velas e de latim, por favor. Estou me referindo, por exemplo, ao desconhecido das nossas novas gerações: o ano litúrgico. Alguém ainda sabe o que é o “ano litúrgico”? Vou dizer então: é o tempo de Deus invadindo o nosso tempo, é o extraordinário bulindo (fazendo bullying mesmo) com o nosso maçante ordinário. Porém, tudo isso acabou em muitas Igrejas. 

O ano litúrgico era uma didática de ensino-aprendizagem circular em meio a um povo que diz aprender só de forma linear. Mentira, pois! Somos todos circulares, por isso gostamos dos memoriais, dos anos litúrgicos, das datas de aniversário e de comemorações que sempre se repetem. A Igreja, assim como o povo de Israel no Antigo Testamento, compreendeu o aspecto memorial dos rituais e criou o “ano litúrgico”, separado e organizado de modo a relembrar a narrativa de Deus na nossa história. Algumas Igrejas Protestantes e Católicas mais tradicionais ainda observam o ano litúrgico, mas a maioria de nós, em nome dos tempos (pós)modernos, abdicou de trazer o sagrado para incomodar a nossa vida ordinária.

Precisamos de rituais. Deus sabe disso e, por isso mesmo, ele instituiu a Mesa do Senhor e o Batismo. O ritual serve para isso: um memorial de nossas crenças. O ritual cristão não deve ser mágico e nem se atribuir um poder para manipular o divino a nosso favor, pois isso já tem um outro nome: feitiçaria. E a Mesa do Senhor e o Batismo, portanto, não são rituais mágicos. Embora, na interpretação Reformada, eles sejam sim algo mais do que meros memoriais. 

Os casamentos cristãos também são rituais. Entretanto, os casamentos já foram tão desnudados de seu significado simbólico que as noivas - que já não cultivam a castidade e o branco de seus véus - nem mais são recepcionadas com a pompa e honra devidas (até para o fotógrafo descendo a passarela da nave as pessoas se levantam)! O casamento é mais um símbolo esgotado de nossa geração avessa à Tradição.

Escrevo este texto à luz do comentário de Franklin Ferreira sobre a conversão de Hank Hanegraaff à fé ortodoxa. E penso também sobre todos esses que transitam de lá para cá e vice-versa. Conversões entre as grandes tradições cristãs sempre houve. Eu mesmo sou um ex-romano, que fiz seminário para ser padre, mas, convencido pelo poder do ES, passei de lá para cá há 22 anos.

Fugindo da exegese apressadamente superficial de que aqueles que saíram do nosso meio só o fizeram porque não eram dos nossos, gostaria de citar o parágrafo retumbante de Franklin Ferreira: “Talvez a principal razão para tal mudança seja o fato de que para estes a instituição – a igreja – com sua hierarquia, símbolos e ritos, se tornou um fundamento e apoio à fé mais importante que a Palavra de Deus”.

E não é verdade? Pois a Reforma Protestante é fundamentada na centralidade da Palavra – Sola Scriptura. Todavia, como disse no parágrafo anterior, é simplista demais usarmos 1 João 2:19 para mascararmos os nossos próprios erros e a responsabilidade na saída desses de nosso aprisco. Podemos, como sempre, fugir do assunto e dizer que este texto jaz sob reminiscências do romanismo ou, mais ousadamente, sondar a decadência de nossa comunicação com a geração de nosso tempo acerca da fé reformada.   

A centralidade da Palavra sempre foi comunicada de uma forma que o povo compreendesse, seja por meio do Batismo, seja pela Mesa do Senhor, seja pelo Ano Litúrgico ou ainda outros símbolos. Acredito que a frase de Franklin Ferreira tem um posicionamento certo, equilibrado e necessário para despertar em nós uma autoavaliação, pois a centralidade da Palavra não significa a exclusão dos meios necessários, pedagógicos e didáticos, para a melhor comunicação com o povo.

Espero que os 500 anos da Reforma Protestante num país que, na verdade, nunca conheceu a Reforma seja uma ótima oportunidade de reflexão sobre o que temos feito de errado na nossa comunicação, seja tanto nos exageros pantomímicos mágicos como também na sequidão de uma liturgia que não se comunica mais com o coração humano sob a desculpa de que o culto é um serviço para Deus e não para o homem. 

Digo “desculpa”, porque antigamente eram os padres que viravam as costas para o povo e seguiam uma liturgia em latim, hoje em dia, contudo, são pastores e líderes protestantes que se negam a olhar nos olhos do povo em nome de um purismo litúrgico, que, concordo, não pode ser antropocêntrico, mas não precisa ser descontextualizado e alienado.

Que este ano seja o início de uma reflexão dos Reformados sobre a expressão da nossa fé em solo culturalmente brasileiro e o que isso, de fato, significará para as futuras gerações.  
   

domingo, 26 de março de 2017

Qual o maior desafio do líder hoje? (9º artigo de 9)

“Qual o maior desafio do líder hoje?” foi uma pergunta feita por um aluno e que me arrasta, neste último artigo desta série, a outra indagação: que tipo de líder a Igreja Brasileira pode (e deve) oferecer à vida pública do país?
Há uns dois anos, eu publiquei um texto cujo título era “Uma Igreja em busca de homens” (aqui). Neste texto, eu já tratava de problemas sérios que estavam minando a liderança masculina dentro das Igrejas. Sim! Falta homem dentro das nossas igrejas!
Não estou dizendo que faltam pessoas do sexo masculino. Estou afirmando que a Igreja foi atingida em cheio pela revolução sexual desde a década de 60; a Igreja sucumbiu à inversão de valores que ocorreu dentro das próprias casas dos crentes; a Igreja desabou diante da confusão ideológica sobre o tema de gênero e papéis sexuais promovidos pela reengenharia social.
A luta pelo poder, disfarçada sob a bandeira dos direitos igualitários da mulher, contribuiu, principalmente, para uma anulação dos papéis masculinos do homem como líder, uma vez que, biblicamente, ele era o único responsabilizado por Deus a prestar contas da saúde espiritual do seu lar. Os homens foram feminizados no papel que lhes cabia e isso teve consequências imediatas e nocivas na sociedade e na Igreja.
A verdade é que a desconstrução da responsabilidade masculina na sociedade e na família coincidiu com o despojamento da liderança que cabia ao homem, oficialmente, na Igreja.
Essa reengenharia foi muito bem feita, porque ela conseguiu o apoio da própria igreja. A partir do momento que, na Constituição, cristaliza-se que o homem deixa de ser o “cabeça” do lar, por que deveria continuar a ser o líder na Igreja? Afinal, “o mundo todo está mudando”!
A resposta dada por muitas denominações foi totalmente equivocada, porque não era bíblica. Começamos a pautar a Igreja segundo a receita dada pelo mundo. Mudamos, porque o mundo mudou. Quando, na verdade, o Chamado era para que evangelizássemos o mundo, pois deveríamos deixar claro que a Igreja não iria mudar, ela não iria negociar seus valores, ela não iria se conformar com o mundo (Rm 12).
Será que ninguém percebe que, quando é a sociedade quem dita o que a Bíblia deve dizer de “relevante”, orientada pelos “anseios” do mundo, é a autoridade da Palavra que sucumbe?
Se cedemos aos argumentos humanos de que “todo mundo faz”; se confundimos os textos bíblicos que falam sobre situações de exceção; se não discernimos entre o que são ordens para a Igreja e o que são ordens exclusivas à nação de Israel daquele tempo; se não fazemos diferença entre o dom do Espírito Santo e o ofício do pastorado (leia I Tm 3); e, finalmente, se não criamos os meninos da Igreja para serem “cabeça” e as meninas para serem submissas (Ef 5: 21ss), o que iremos oferecer à vida pública, a não ser uma porta aberta para aceitarmos a ordenação gay e tudo o mais que o mundanismo nos impõe?
“Qual o maior desafio do líder hoje”? Voltar-se à Palavra de Deus, apesar da Igreja. Insistir em pregar o que lhe foi ensinado e o que ele aprendeu com os gigantes da fé do passado, a despeito da pressão do próprio povo da Igreja. Não ceder aos apelos “dos novos tempos”, ainda que o preço seja o ostracismo e a solidão profética. São estes os nossos tempos.
Não removas os antigos limites que teus pais fizeram (Pv 22:28).
Leia também o penúltimo artigo desta série: “Procura-se líder para uma Igreja morta”.
Publicado originalmente no GospelPrime.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Procura-se líder para uma igreja morta (8º artigo de 9)

Igrejas morrem. É o que se conclui a partir da existência de tantos congressos e encontros sobre “avivamento”, “reavivamento” e “revitalização” de Igrejas espalhados pelo Brasil.
Só se aviva aquilo que está morto; só reaviva-se o que um dia fora vivificado, mas que agora se encontra morto novamente; do mesmo modo, só se revitaliza aquilo que perdeu seu antigo vigor ou até mesmo a vida.
Igrejas morrem. Mas não precisamos ser tão rápidos em enterrá-las. Eu sei que ser líder de igrejas moribundas ou mortas não é um alvo almejado pela maior parte dos recém-formados em nossos seminários. Somos uma geração de “sucesso”, de números suntuosos e de estatísticas triunfalistas. Infelizmente.
Escândalos sexuais e corrupção, encobertos e mal resolvidos, além de pastoreio egocêntrico e lideranças dominadoras, até mesmo o desvio completo do Evangelho, são apenas alguns dos problemas mais comuns que levam as igrejas às salas de UTI.
Precisamos de líderes para igrejas asfixiadas tanto pelo legalismo, como pelo moralismo, pelo ativismo, passivismo e indiferença. Líderes que, ao invés de serem chamados de “apóstolos”, “bispos” e “doutores”, anseiem por receber o nome de “reparador das roturas, e restaurador de veredas para morar” (Isaías 58:12).
Líderes que ousem enfrentar tais realidades sem se renderem a um modelo fácil de receita de bolo, visando, simplesmente, que o fermento inche a igreja toda, levando-a a uma aparência de “avivada”, enquanto, aos olhos de Deus, o pulso continua sem qualquer sinal de batimento cardíaco.
Definitivamente, não devemos nos enganar, supondo que o crescimento de uma igreja seja sinal de saúde, embora, veja bem, uma igreja saudável tenda a crescer. Mas um câncer também cresce. Digo isso, porque a Igreja Brasileira é rápida em enformar-se dentro de fórmulas, métodos e “passos” como se a simples “multiplicação de células” fosse sinal de saúde espiritual.
O que mata uma igreja? A única resposta bíblica é esta: pecado não tratado. Portanto, se não formos direto ao ponto, teremos apenas igrejas grandes com grandes problemas.
No caso de Neemias e Esdras, a razão daquela geração estar quebrada é sempre mais evidente para nós. Aquele povo fora mandado por Deus ao cativeiro, por causa de sua idolatria. Esdras e Neemias foram levantados por Deus para avivar a saúde espiritual daquele povo.
Contudo, quando vejo a Igreja em Éfeso (Ap 2), a causa de sua agonia foge à compreensão das atuais lideranças tão acostumadas a confundirem o verdadeiro avivamento com ativismo de agendas frenéticas, “encontros tremendos” e reuniões de cultos que mais se parecem com musicais da Broadway ou shows de rock lollapalooza.
A Igreja em Éfeso fora rica em boas obras; trabalhara, havia sido perseverante; ao contrário de muitas igrejas de hoje, a igreja em Éfeso assumira a sua responsabilidade de julgar, denunciar o erro e o pecado; era uma igreja intolerante com os homens maus; ela não saía por aí ouvindo pregação e ensino de qualquer um que se apresentasse como pastor; era uma igreja combativa, que fora perseguida e não desistira. E, em tudo isso, ela foi elogiada pelo Espírito Santo.
Todavia, exatamente aquilo que foi a razão do elogio à igreja em Éfeso foi também o que a levou à bancarrota espiritual. Parece contraditório?
Igrejas que não trabalham, que não evangelizam, que não fazem obras de caridade; igrejas que não estudam a Palavra, Igrejas que não julgam os que se dizem apóstolos, que não confrontam; igrejas que se acomodam, que ficam protegidas dentro das suas quatro paredes, certamente, são igrejas que não se machucam, são igrejas que não possuem feridas abertas, enfim, não se desgastam, não sofrem o que a Igreja em Éfeso sofreu: um profundo esgotamento espiritual!
Aplique isso às atuais denominações liberais da América do Norte e da Europa. Elas enfrentaram profundas guerras espirituais para manter a chama do Evangelho acesa naqueles continentes desde a Reforma Protestante. Mas, em algum momento, perderam o “primeiro amor” e não conseguiram retornar às antigas veredas e morreram envenenadas por mentiras.
A Igreja Evangélica Brasileira já tem vivido grandes batalhas espirituais contra os poderes que atuam neste mundo tenebroso e tem se preparado para outras lutas que virão. Contudo, assim como ocorreu em Éfeso, na América do Norte e na Europa, corremos o risco de perder o primeiro amor devido ao esgotamento espiritual advindo desses embates.
A resposta do Espírito Santo ao esgotamento espiritual ainda é o retorno ao primeiro amor: aquele momento em que tudo fez sentido para você, o momento em que seus olhos foram abertos e você se viu totalmente abraçado, resgatado, transformado e pleno do Espírito Santo! Você ainda se lembra desse dia?
O dia em que você foi arrebatado pelo amor de Cristo, arrependeu-se dos seus pecados e assumiu um compromisso eterno com Ele. Esta é a resposta do Espírito Santo para a Igreja morta em Sardes (Ap 3): “Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, guarda-o e arrepende-te”. Na verdade, é o mesmo antídoto usado pelo profeta diante da morte de seu povo: quero trazer à memória o que me pode dar esperança (Lm 3.21)!
Ensino 7:  O líder insiste na pregação fiel da Palavra, que é o poder de Deus para fender quaisquer corações de pedra e ressuscitar mortos.
Leia também o 7º artigo desta série: “Davi, o líder que caiu“.
Publicado originalmente no GospelPrime.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Davi, o líder que caiu (7º artigo de 9)

Todo pecado, por menor que possa parecer (uma cola de prova, por exemplo), coloca-nos debaixo da maldição da lei. Assim, neste sentido, não há “pecadinho” e “pecadão”: todos pecamos e todos estamos debaixo da Ira de Deus (Gl 3:10).
Entretanto, a Bíblia também é clara ao dizer que, embora todos os pecados sejam odiosos a Deus, há pecados abomináveis a Deus. Pecados que, aos olhos dEle, são totalmente repulsivos.
Tais pecados recebiam uma punição muito mais severa do que outros no Antigo Testamento. Estou falando, por exemplo, do adultério e do homicídio, que eram punidos com a morte (Lv 20.10; Lv 24.17; Êx 21.14). E, mesmo no Novo Testamento, Jesus diz que há um pecado imperdoável: a blasfêmia contra o Espírito Santo (Mt 12:31).
À parte da breve exposição acima, há o fato de que existem pecados cujas consequências sociais são evidentes, atingindo não somente o pecador, mas também as pessoas ao seu redor.
O pecado do adultério encaixa-se em tudo o que foi dito até agora: é um pecado odioso (como todo pecado), é um pecado abominável (cuja punição era a morte) e, finalmente, suas consequências sociais são desastrosas para muitas famílias e igrejas.
A pergunta que ouso fazer é a seguinte: e se eu e você cairmos em adultério? Não é possível?! Por acaso somos melhores que o Rei Davi? Eu não sou. Aliás, sinceramente, estou plenamente convencido de que sou pior do que o Rei Davi em muitos sentidos, então, por que deveria enganar-me e usar uma máscara de super crente?
Acredito que eu e você precisamos ensinar a Igreja não só a prevenir a tragédia do adultério, mas que também é possível a esperança da ressurreição.
Eu não aprendo com o Rei Davi apenas como “ele cavou a própria cova”, mas de que maneira foi possível Deus não retirar dele a coroa da glória, mesmo depois de todos os crimes que cometeu.
O problema é que pecados sexuais dentro de nossas igrejas trazem tanto dano que, dificilmente, por várias razões mundanas, egoístas e farisaicas, não estendemos nossas mãos para resgatar o ministério de nossos líderes.
Parece mesmo que com uma igreja hipócrita como a que temos encontrado muitas vezes no Brasil, basta ao diabo preparar a armadilha para derrubar o líder, porque, uma vez caído, mantê-lo no chão será um trabalho que a própria Igreja fará tranquilamente por Satanás.
O que fazer quando um líder cai? Precisamos chorar com nossos líderes que tanto nos alimentaram. São pastores que precisam de pastoreio; são conselheiros que necessitam de conselhos; e médicos que precisam de nossa assistência.
É com profunda tristeza, contudo, que constatamos, frequentemente, ser um malévolo sorriso de “bem feito” ou uma cara de “eu sabia” o que muitos oferecem ao invés de mãos estendidas.
O líder, ainda que perdoado por Deus, poderá não ser perdoado por muitas pessoas e poderá pagar um preço altíssimo com a estigmatização de sua própria família. Todas essas consequências estão muito bem registradas na história do Rei Davi para que o temor aja como prevenção à nossa loucura (Pv 5).
Surpreendentemente, Davi não perdeu a coroa como aconteceu com o Rei Saul. Havendo arrependimento sincero, por que a Igreja não consegue dar ao mundo um testemunho cristão pela maneira como trata, perdoa e restaura suas lideranças depois da queda?
Ensino 6: O líder precisa ser liderado, precisa ser acompanhado na sua caminhada por outro líder, tanto para ajuda-lo na prevenção de certos erros como na restauração real de seus pecados.
Leia também o 6º artigo desta série: “Moisés, o líder no deserto“.
Publicado originalmente no GospelPrime.

terça-feira, 21 de março de 2017

Moisés, o líder no deserto (6º artigo de 9)

Há pessoas que são chamadas por Deus para serem líderes na prosperidade, porque a prosperidade traz o seu quinhão de desafios: acomodação, luxuria, preguiça, materialismo, frieza espiritual, indiferença, etc.
Há aqueles, contudo, chamados para serem líderes no deserto, enfrentando os desafios próprios que ele guarda, e este foi exatamente o chamado de Moisés.
Chamado por Deus para ser um líder em meio a uma miríade de diversidades, Moisés viveu no deserto de Deus bem longe da prosperidade do palácio de Faraó. Uma das cenas que mais ressalta o aspecto que eu e você devemos aprender deste líder se deu no trágico evento do bezerro de ouro (Êx 32).
Vamos contextualizar a história para que você possa se identificar melhor: imagine que você saia do conforto da sua casa; da segurança da sua cultura; passe anos aprendendo uma língua e cultura tão adversas; e seus filhos se vejam limitados a viver uma vida que eles não escolheram, por causa da liderança que você assumiu.
Mas não é só isso: várias pessoas do próprio povo não reconhecem o seu esforço e amor por eles e se levantam contra a sua liderança; atrapalham o trabalho de evangelização e plantio daquela igreja; não valorizam o seu investimento em oração e estudo da Palavra; até que, finalmente, aquele povo decreta que você deva morrer.
Sem aviso prévio, quantos missionários ou pastores já não viram, de uma hora para outra, seu sustento financeiro cortado sem que a igreja sequer se incomodasse com o que seria da sua família?
Simplesmente, decidem que você não serve mais, porque a “visão” da Igreja mudou ou as “prioridades” agora são outras. São igrejas que passam a se comportar como os povos pagãos, louvando bezerros de ouro ao invés de adorarem ao Dono da Igreja, atribuindo as conquistas dadas por Deus por intermédio do seu ministério a outra pessoa ou grupo.
Não foi apenas Moisés que passou por isso, mas a Bíblia está repleta de casos em que os pastores, profetas e missionários de Deus foram rejeitados injustamente pelas ovelhas que estavam confiadas a eles. Há um ensino para mim e para você na narrativa de Êxodo 32.
Líderes rejeitados, feridos, magoados e tolhidos têm sempre diante de si a opção de “abrirem uma nova igreja”, começarem tudo de novo, negando o povo que lhe rejeitou e feriu. É quando o deserto se instala na alma que mais corremos o risco de nos iludir com qualquer miragem, crendo que ela possa ser um oásis de novas oportunidades. Quando não é.
Muitos saem correndo na direção desses oásis para, só depois de muito tempo, perceberem que não chegaram a lugar algum. Mas e Moisés, o que ele fez? Ele teve a coragem de abrir mão dos seus legítimos direitos e interceder pelo povo que lhe havia desprezado! (Êx 32:11-13).
Sim, ele pediu em favor de um povo que só o tratava injustamente. O próprio Deus fizera a proposta para Moisés ser um novo patriarca; ele seria o “pai de muitas nações”; o novo fundamento para uma nova era. Seria muito mais fácil seguir esse caminho… Mas ser líder nunca foi seguir o caminho mais fácil.
Colocar os joelhos no chão, abrir mãos dos próprios justos direitos e pedir em favor daqueles que nos perseguem é o que a Bíblia chama de mansidão. Por isso, a Bíblia diz: “E era o homem Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra” (Nm 12:3; ARC).
Ensino 5: O líder deve sempre interceder pelo bem do povo que Deus lhe concedeu, ainda que esse povo se erga contra ele injustamente.
Leia também o 5º artigo desta série: “José, o líder fujão“.
Publicado originalmente no GospelPrime.

Leia também:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...